Recria eficiente de bezerras leiteiras, passos importantes

Recria eficiente de bezerras leiteiras, passos importantes

bezerras leiteras

Especialista detalha importância da colostragem, manejo, sanidade e nutrição para alcançar bons resultados à desmama.

Além de serem futuras produtoras de leite nas fazendas dedicadas à atividade, bezerras de recria são um ativo financeiro, e podem desapertar o produtor em momentos complicados. Em leilões recentes, organizados pela Embral, bezerras da raça Holandês, em Bagé (RS), foram vendidas na média por R$2.078, ficando as Jersey mais acima, cotadas a R$ 2.875. Em Charqueada (SP), o preço das Girolando variou na casa de R$ 2.400.

Só que, para ter retorno, é preciso investir. Investir em sanidade, manejo adequado e nutrição, cuidados decisivos para definir o potencial dos animais à desmama. Carla Bittar, professora do Departamento de Zootecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), pontua a que o produtor deve estar atento para fazer uma recria eficiente de bezerras leiteiras. Algumas recomendações também servem para bezerros em geral:

1) Colostragem

Primeira barreira contra agentes externos. Quando o assunto é qualidade na produção da bezerrada, a conversa começa ainda cedo, quando do fornecimento de colostro aos animais. Colostro que também é conhecido como “primeiro leite” e garante a saúde do novo rebanho. “Logo após o parto, o fornecimento de colostro deve ser feito o mais rápido possível”, diz Carla. Por meio dele se dá a transferência de imunidade da vaca para a cria, o que não acontece durante a gestação. A explicação para isso é uma característica da placenta dos bovinos, que não deixa passar proteínas e, consequentemente, anticorpos.

No volume e na frequência certos. De acordo com a professora da Esalq, a recomendação é fornecer de 4 a 6 litros de colostro de alta qualidade aos bezerros e bezerras em suas seis primeiras horas de vida. “Este é o período de maior eficiência, já que depois os animais vão perdendo a capacidade de absorver os anticorpos presentes no colostro”, afirma. O consumo pode ser feito diretamente, em mamadeira ou mesmo baldes. Dosagens insuficientes, seja por não respeitar o tempo, volume ou qualidade indicados, podem predestinar o animal a óbito ou aumentar suas chances de adoecer. “Animal doente gasta energia lutando contra o problema e não consome alimento”, diz. O resultado são taxas de crescimento menores ou perda de peso.

Fonte de alimento. “Sem dúvida, o colostro também é bastante rico em nutrientes e tem altas concentrações de proteína e lipídeos”, sendo indispensável à nutrição dos bezerros em um primeiro momento. Carla explica que a fração lipídica é importante no fornecimento de energia para o recém-nascido, o que está relacionado, entre outras coisas, à sua produção de calor.

Eficiência garantida. Sempre que houver colostro excedente de boa qualidade recomenda-se o seu armazenamento em freezer, para ter na fazenda o chamado “banco de colostro”. Esta reserva pode ser usada quando vacas ou novilhas que acabaram de parir não produzirem colostro em quantidade ou qualidade adequadas. O colostro pode permanecer no freezer por até um ano sem perder suas características. Também pode ser armazenado em geladeira por período de 3 a 4 dias. “O descongelamento deve ser feito em banho-maria em temperatura que não ultrapasse os 50°C, uma vez que os anticorpos são proteínas e não podem ser submetidos a altas temperaturas porque desnaturam”, diz. Isso quer dizer que perdem sua conformação específica e, como reflexo disso, sua função biológica.

2) Manejo

Instalações. Manter a infraestrutura adequada para receber as bezerras é outra tarefa importante do produtor, e que evita o estresse entre a bezerrada. Dependendo do tipo de instalação, é possível registrar estresse térmico, normalmente causado pelo calor, mas também pelo frio (no caso de um inverno chuvoso); estresse devido a limitação de locomoção; estresse social (quando animais de tamanhos diferentes são alojados em grupos); estresse alimentar (fome/sede); em resposta ao reagrupamento de animais etc. “Mesmo quando tudo vai bem, é comum acontecerem algumas fases de estresse, como durante o desaleitamento”, pontua a professora.

3) Sanidade

Doenças do rebanho. Não raro entre os bezerros é ainda o aparecimento de doenças ou de algum mal-estar. Entre os mais comuns estão problemas respiratórios, tristeza bovina parasitária e questões relacionados à cura inadequada do umbigo. A principal causa de morte são as diarreias, que podem ser causadas por bactérias, vírus ou protozoários; quando não têm origem alimentar.

Para evitar transtornos para o animal, antes de tudo é necessário ter um protocolo de colostragem bem feito. “Animais com transferência de imunidade passiva adequada apresentam maiores concentrações de anticorpos circulantes, o que auxilia no combate a patógenos”, explica. O programa de vacinação de vacas e novilhas, por sua vez, é outra ferramenta com impacto direto nesse ponto. “Animais no pré-parto devem ser vacinados de forma que seu sistema imune seja estimulado a produzir anticorpos específicos para patógenos que acometem os bezerros, por exemplo aqueles ligados a diarreias”.

A produção de anticorpos pelos próprios bezerros ocorre apenas por volta da terceira semana de vida, quando a concentração daqueles que foram obtidos por meio do consumo de colostro caem.

4) Dieta concentrada

A saúde do rúmen. A dieta sólida das bezerras também influencia no seu desempenho à desmama e deve ser baseada em concentrados. Esses alimentos possuem perfil de fermentação que estimula o desenvolvimento do rúmen, levando ao desaleitamento ‘mais precoce’ dos animais. “Baseados em milho e farelo de soja, podem conter outros ingredientes que auxiliem no ajuste do seu teor de fibra”, afirma Carla.

A recomendação é que sejam oferecidos, desde as primeiras semanas de vida do animal, em quantidades crescentes e sem que haja limitantes para o consumo. Diante disso, as sobras devem ser retiradas diariamente e podem ser fornecidas aos animais mais velhos, desde que estejam secas e limpas. “Os concentrados devem ter composição adequada para animais com o rúmen em desenvolvimento e apresentar teores em torno de 80% de NDT (nutrientes digestíveis totais), 20% de proteína bruta e 15% de FDN (fibra em detergente neutro), medida do teor de fibra nos alimentos”, coloca Carla.

A hora de fazer a desmama. O consumo de concentrado é sempre o melhor critério para a tomada de decisão de desaleitar o bezerro, uma vez que tem alta relação com o desenvolvimento ruminal. A indicação que se faz é de que o bezerro esteja consumindo em torno de 700 g/dia (raças grandes) ou 450 g/dia (raças pequenas) para ter o rúmen parcialmente desenvolvido. “Assim, o desaleitamento pode ser feito sem que as taxas de crescimento sejam reduzidas”, diz. “Como o consumo depende do volume de leite fornecido, não temos como simplesmente recomendar uma idade generalizada”, comenta. Um detalhe importante é que quando o volume de dieta líquida for baixo, a composição do concentrado deve ser de melhor qualidade.

Desmama precoce. O desaleitamento precoce é conseguido com o fornecimento de menores volumes de dieta líquida. “Quanto mais leite o bezerro recebe, menor é o consumo de concentrado. Isso faz com que ocorra um atraso no desenvolvimento ruminal, aumentando assim o período de aleitamento. Quando o animal recebe volumes restritos de leite, por exemplo, 4L/dia, é forçado a consumir concentrado em idades bem mais jovens, o que possibilita o desaleitamento por volta da 8ª semana”, completa.

Fonte: Portal DBO