Recria em parceria é possível?

Recria em parceria é possível?

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Foto Divulgação

Quais as vantagens de recriar bezerras em parceria? Até quanto pode chegar a margem de lucro do produtor com esse sistema? Qual a mensalidade paga pelo produtor para terceirizar a recria das suas fêmeas?

Essas e outras dúvidas foram respondidas pelo senhor Lúcio Cunha, gerente da Cooperativa Veneza de Nova Venécia-ES, no mercado há mais de 64 anos e que atualmente conta com mais de 900 cooperados.

Lúcio participará do Encontro dos Encontros da Scot Consultoria, que acontecerá de 1 a 5 de outubro de 2018 no Centro de Eventos do Ribeirão Shopping em Ribeirão Preto-SP. Cunha falará sobre recria de bezerras em parceria durante o bloco “Programa vaca feliz, leite para todos.”

Scot Consultoria: A recria de bezerras e novilhas representa um elevado gargalo na pecuária leiteira, sobretudo na propriedade familiar, pela reduzida área disponível, que poderia ser totalmente destinada a produção de leite, entre outros. Teria como estabelecer em termos percentuais quanto o produtor ganha ao optar por terceirizar sua recria? Quais os principais fatores que podem fortalecer essa decisão?

Lúcio Cunha: Em média, o produtor que opta por terceirizar sua recria ganha em várias frentes. Como por exemplo, o pleno atendimento de todas as demandas nutricionais e sanitárias de suas futuras matrizes, por um custo acessível, tanto é que após o ciclo de recria totalmente concluído, a margem de lucro entre os custos de produção da recria e o custo de oportunidade com a venda da novilha prenhe, pode chegar a 26,0%. Seja pela maior dedicação do produtor a sua atividade principal, a produção de leite, já que normalmente não consegue cuidar bem de nenhuma das duas, ou destinando a área anteriormente utilizada com a recria para a produção de leite, o que gera uma margem de lucro adicional de em média 36,0%, quando comparada as atividades executadas em conjunto.

Scot Consultoria: A profissionalização da recria de bezerras e novilhas pode também ser financeiramente interessante para projetos de iniciativa privada? O que deve ser observado para que se obtenha sucesso nesse empreendimento?

Lúcio Cunha: Pode perfeitamente ser executado pela iniciativa privada, desde que o projeto seja enxuto e seus índices de eficiência otimizados. Outro fator importante é o sistema de produção a ser adotado, como por exemplo o baseado na produção e manejo intensivo da pastagem tropical, cujos custos de produção são extremamente competitivos a ponto de gerar boa margem de lucro, mesmo trabalhando com uma mensalidade ao produtor a preços pequenos.

Por exemplo, no Centro de Recria Veneza, com a atual taxa média de lotação de cinco unidade animal por hectare, a mensalidade atual de R$135,00 reflete o custo total acrescido de uma margem de lucro de 5,0%. Porém nos meses que essa mesma taxa se aproximou de 7,5UA/ha, o mesmo custo total caiu para em trono de R$90,00/mês. Deixando uma margem de 33,0% sobre a mensalidade atual, que já é muito mais competitiva que as demais opções de recria adotadas.

Scot Consultoria: Se os centros de recria são tão impactantes no potencial de produção de animais leiteiros e por consequência na produção de leite, porque não vemos no país muito mais exemplos como esse que você conduz?

Lúcio Cunha: A ausência de maior quantidade de projetos de recria terceirizada pode ser devido à pouca visão de longo prazo daqueles que se beneficiam da cadeia produtiva do leite, como os diretores de empresas de laticínios, cooperativas ou privadas, já que se seus fornecedores trabalharem com maior escala de produção e de forma mais estabilizada, alcançam custos mais competitivos na captação de sua matéria-prima.

Há também a falta de visão profissional de produtores que por um motivo ou outro não se estabeleceram na produção de leite e poderiam destinar sua estrutura para a recria terceirizada de novilhas, que pode deixar uma rentabilidade mais competitiva em relação a outras atividades do agronegócio.

Scot Consultoria: Você poderia comentar conosco um pouco sobre o projeto Centro de Recria Veneza e como funcionam os contratos de parcerias?

Lúcio Cunha: O projeto de Recria Veneza, começou a partir de uma reivindicação de alguns produtores e técnicos, plenamente atendido pelo diretor presidente José Carnielli, em meados de 2012. A partir de meados de 2015, com a estrutura pronta, começou a receber as primeiras novilhas, vindas de outra propriedade da Veneza, que já praticava a compra de bezerras e novilhas, recriava e vendia a novilha prenhe ao produtor que tinha a preferência sobre seus próprios animais vendidos, modalidade essa mais utilizada até então.

Em seguida implantamos a modalidade que denominamos Boitel, cujo produtor paga uma mensalidade por cada novilha alojada. Em média as bezerras chegam ao centro de recria aos três meses de idade, já desaleitadas e ficam por um período médio de até dezoito meses, quando são devolvidas a seus donos com entre três a cinco meses de prenhez. No caso das novilhas que foram compradas, são destinadas a venda após diagnosticada sua prenhez.

Entretanto, alguns eventos como a drástica estiagem pela qual passou a região entre os anos de 2014 a 2017, causou severa quebra na produção de forragem e por consequência na produção de leite das propriedades, levando os produtores a se descapitalizarem com aquisição de forragem suplementar, comprometendo a implantação da modalidade Boitel, e por outro lado, incentivando a venda de seus animais de recria, a fim de gerar renda adicional, para custear esses gastos extras.

Com isso, planejamos a implantação de mais duas modalidades, os sistemas de recria, o sistema a terça, quando de cada três bezerras de idade entre três a oito meses que chegam ao centro de recria, somente uma é devolvida prenhe ao produtor. Já no sistema a meia, de cada duas novilhas com idade superior a nove meses que chegam ao centro, uma é devolvida prenhe ao produtor.

A finalidade dessas novas modalidades era possibilitar ao produtor adotar o sistema de parceria sem a necessidade de desembolso direto e os números acima foram calculados de forma a ficarem próximos do custo de recria das novilhas alojadas.

Porém, até então, a modalidade mais utilizada é a de compra e venda, que se não é a que mais justifica a existência do projeto, é a que o tem sustentado e que certamente está também contribuindo para a obtenção dos resultados propostos e na melhoria da qualidade média do rebanho da região.

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Fonte: Scot Consultoria

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