Segundo maior produtor de café do Brasil negocia dívida bilionária e busca acordo para preservar operações

Grupo Ruiz Coffees, um dos maiores nomes da cafeicultura nacional, obteve na Justiça a suspensão temporária da execução das dívidas e negocia uma solução com credores. Estratégia envolve criação de fundo para administrar fazendas dadas em garantia e preservar a produção de café.

O Grupo Ruiz Coffees, reconhecido como o segundo maior produtor de café do Brasil, iniciou uma ampla negociação com credores para reestruturar seu passivo financeiro e manter a continuidade das operações agrícolas. A companhia conseguiu na Justiça uma medida cautelar que suspende, por 60 dias, a execução das dívidas enquanto busca construir um acordo que preserve sua atividade produtiva.

A estratégia em discussão prevê a transferência das propriedades rurais oferecidas como garantia para um fundo controlado pelos próprios credores. Na prática, as fazendas permaneceriam arrendadas ao grupo, que seguiria produzindo normalmente e manteria, no longo prazo, a possibilidade de recomprar os ativos. Paralelamente, a empresa também avalia a venda de parte das propriedades como forma de reduzir o endividamento.

Justiça concede prazo para negociação

A medida cautelar foi concedida em 29 de junho pelo juiz Paulo Roberto Zaidan Maluf, da Vara Regional Empresarial de São José do Rio Preto (SP). Durante o período de proteção judicial, a empresa pretende avançar nas negociações para construir uma solução consensual com seus financiadores. O processo tramita sob segredo de Justiça.

Segundo informações apresentadas pela companhia, a pressão financeira decorre da combinação de diversos fatores, entre eles:

  • expansão acelerada da operação;
  • aumento expressivo do custo financeiro com a alta dos juros;
  • concentração de dívidas de curto prazo;
  • redução da oferta de crédito para renovação de financiamentos;
  • características do ciclo produtivo da cafeicultura, que exige elevado capital de giro.

Dívida pode chegar a R$ 1 bilhão

Parte relevante das obrigações financeiras está vinculada aos Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), cujas operações somam aproximadamente R$ 300 milhões, segundo as informações divulgadas.

Fontes do mercado estimam que o passivo consolidado possa alcançar cerca de R$ 1 bilhão, embora a empresa informe que os números ainda estejam em fase de consolidação e não confirme oficialmente esse montante.

Em manifestação sobre o processo, o diretor financeiro do Grupo Ruiz Coffees, Ricardo Prado, afirmou que as negociações têm como foco preservar a continuidade da empresa.

“O grupo mantém conversas com credores detentores de garantias, inclusive em operações com alienação fiduciária, buscando alternativas que permitam a preservação da atividade empresarial e a construção de uma solução sustentável para o endividamento.”

Segundo o executivo, a prioridade é manter a operação agrícola em funcionamento sem abrir mão de ativos considerados estratégicos para o negócio.

Um dos maiores produtores de café do país

Fundado em 1930, o Grupo Ruiz Coffees é administrado atualmente pela quarta geração da família Ruiz e possui uma das maiores estruturas privadas da cafeicultura brasileira.

Entre os principais números da operação estão:

  • 22 fazendas distribuídas entre Minas Gerais e Bahia;
  • aproximadamente 9 mil hectares plantados;
  • produção anual próxima de 250 mil sacas de café;
  • armazém com capacidade estática para 160 mil sacas em Piumhi (MG).

Alta dos juros e restrição de crédito agravaram a situação

De acordo com a empresa, a partir de 2021 foram captados recursos no mercado por meio de Fiagros para financiar a expansão da produção.

Com a elevação das taxas de juros nos últimos anos, o custo financeiro aumentou significativamente. Ao mesmo tempo, houve redução na renovação de linhas de crédito por parte de algumas instituições financeiras, dificultando a rolagem das dívidas justamente durante um período sensível do ciclo produtivo da cafeicultura.

Segundo fontes do mercado citadas na reportagem original, a proximidade do vencimento das operações estruturadas aumentou a preocupação entre fornecedores e investidores, acelerando a busca por uma solução negociada.


Nota oficial da empresa (na íntegra)

“O Grupo Ruiz informa que adota uma postura de absoluta conformidade com as normas legais e, por essa razão, não realizará manifestações públicas detalhadas sobre procedimentos judiciais em curso que estejam submetidos a segredo de justiça.

A companhia ressalta, contudo, que suas operações produtivas e comerciais permanecem em funcionamento integral e normal, sem qualquer interrupção. A colheita, o beneficiamento e a distribuição de café para os mercados nacional e internacional seguem ativos, protegendo os postos de trabalho, a cadeia de fornecedores e o atendimento aos clientes, mantendo o padrão de excelência e o cumprimento de contratos que balizam a história da marca há quase um século.

O Grupo Ruiz reitera que mantém canais oficiais abertos e reafirma seu compromisso com a transparência, com a segurança jurídica de suas relações e mantém total confiança no diálogo construtivo com suas instituições parceiras e investidores para a consolidação de uma base de negócios ainda mais sólida e perene”.

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