Participação no Mundial da raça, na República Tcheca, reforça projeto da ABCRSS para integrar avaliações genômicas à seleção nacional e ampliar o intercâmbio de genética adaptada aos trópicos.
A seleção do Simental no Brasil se prepara para ampliar o uso de uma ferramenta que ganha espaço na pecuária mundial: a genômica. O assunto esteve entre os principais temas discutidos no Congresso Mundial do Simental, realizado em setembro, na República Tcheca, com participação de representantes de cerca de 27 países.
O Brasil foi representado pelo presidente da Associação Brasileira de Criadores das Raças Simental e Simbrasil (ABCRSS), Mário Coelho Aguiar Neto, conhecido como Mamado. Durante o encontro, ele apresentou particularidades da criação brasileira e acompanhou experiências que podem contribuir para a evolução do programa nacional de melhoramento.

A programação ocorreu de 15 a 21 de setembro de 2026, com atividades em Brno e outras localidades do país. O roteiro reuniu discussões técnicas, encontros da Federação Mundial do Simental e visitas a propriedades e estruturas ligadas à criação da raça.
“O mundial nos permitiu muitas trocas de experiências internacionais como também apresentar as particularidades de nossos sistemas de criação”, afirmou Mamado.
Participante dos encontros mundiais desde 1996, o dirigente esteve pela primeira vez na República Tcheca. Além de conhecer diferentes modelos de produção, a viagem reforçou uma avaliação: o avanço genético precisa acompanhar as condições em que os animais serão criados.
Genômica ganha espaço na seleção do Simental brasileiro
A conferência técnica do congresso foi realizada na Universidade Mendel, em Brno, em 19 de setembro. Entre os assuntos abordados estiveram os desafios da criação e o uso da genética Simental-Fleckvieh em condições tropicais.
Para Mamado, as discussões “confirmaram a importância de incorporar essa ferramenta de forma estruturada ao programa brasileiro de melhoramento”.
Na prática, o uso de informações do DNA ajuda a identificar diferenças genéticas entre os animais e pode antecipar a identificação de indivíduos com características desejáveis. Esse recurso também permite avaliar o potencial para atributos que se manifestam apenas mais tarde ou em um dos sexos, como a produção de leite.
No Brasil, a ABCRSS trabalha para ampliar a utilização da genômica na seleção da raça. Entre as iniciativas informadas pela entidade está uma parceria com a Universidade de São Paulo (USP) e o pesquisador Fernando Baldi para estruturar seu programa de melhoramento genético.
Segundo o presidente, alguns criadores já realizam avaliações genômicas individualmente. A proposta é integrar a tecnologia a um programa coletivo da associação, ampliando sua aplicação na seleção nacional.
O movimento busca dar maior consistência ao trabalho dos selecionadores e aproximar as decisões de acasalamento e escolha de reprodutores das necessidades dos sistemas brasileiros.
Carne e leite mostram a versatilidade da raça
Outro destaque da viagem foi o aproveitamento do Simental em sistemas de dupla aptidão. Na Europa, a raça tem presença tanto na produção de leite quanto na geração de animais destinados à produção de carne.
Nesse modelo, o aproveitamento dos machos integra a estratégia econômica das propriedades, agregando uma segunda frente de produção à atividade leiteira.
Segundo o relato da delegação brasileira, as visitas na República Tcheca incluíram fazendas com rebanhos superiores a 500 animais, sistemas de confinamento e uso intensivo de tecnologias de alimentação, manejo e seleção genética.
A escala das propriedades chamou a atenção de Mamado, assim como a participação do país em avaliações integradas com a Áustria e outros mercados.
Apesar das referências observadas, o dirigente ressalta que os critérios europeus precisam ser analisados à luz da realidade brasileira.
“Essa experiência, entretanto, não pode ser simplesmente transferida para o Brasil”, avaliou.
A pecuária nacional reúne criação extensiva, produção a pasto, confinamento e diferentes modelos de exploração leiteira. Essa diversidade exige objetivos de seleção compatíveis com o clima, a alimentação disponível e as condições de manejo de cada região.
“Cada região tem suas particularidades”, afirmou Mamado. A mesma percepção, segundo ele, foi compartilhada por representantes de países africanos e sul-americanos.
Genética brasileira pode encontrar espaço em outros mercados
O congresso também fortaleceu o relacionamento da ABCRSS com representantes da África do Sul, Colômbia, Itália e outros integrantes da Federação Mundial do Simental, da qual o Brasil participa há mais de três décadas.
As conversas apontaram possibilidades de ampliar o intercâmbio com países das Américas e de outras regiões que enfrentam desafios semelhantes aos brasileiros.
Nesse contexto, a seleção realizada em condições tropicais pode abrir oportunidades para a genética nacional, especialmente em mercados que precisam conciliar desempenho produtivo e adequação ao ambiente.
A perspectiva é transformar a troca de experiências em cooperação técnica e novas conexões comerciais, acompanhando a evolução do programa brasileiro de melhoramento.
Segundo a ABCRSS, o próximo Congresso Mundial do Simental está previsto para a Romênia, dando continuidade às discussões internacionais sobre o futuro da raça.
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