Sobras de carnes em frigoríficos, para onde vai?

Sobras de carnes em frigoríficos, para onde vai?

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Foto: Fábio Medeiros

Sobras de carnes em frigoríficos viram produtos farmacêuticos, farinhas, pneus e tintas. Veja como tudo é aproveitado!

Acostumado a privilegiar cortes nobres, o consumidor, em geral, desconhece uma indústria que ajuda a evitar doenças e a reduzir impactos no ambiente. Depois do abate e da separação das carnes nos frigoríficos, há uma série de “sobras” que precisam sair de frigoríficos e açougues, como gorduras, ossos, carcaças, vísceras e penas.

O trabalho desenvolvido pela indústria da reciclagem animal é pegar esse material, que só pode ser descartado diante de uma série de cuidados, e transformá-lo em novos produtos, que voltam ao mercado: são feitas farinha de carne, de ossos e de sangue, óleos, gorduras, gelatina e colágeno.

Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que normalmente as empresas terceirizam os serviços, mas há grandes frigoríficos que fazem parte do trabalho e vendem o excedente para as indústrias de reciclagem.

Os produtos são utilizados por diversos setores: farmacêutico (para cápsulas de medicamentos, vacinas e antibióticos), construção civil (em tintas, corantes e resinas), automotiva (para pneus e borrachas) e até esportiva (em suplementos de atletas). Ração animal, sabonetes e até perfumes e maquiagens usam o material.

O presidente executivo da Associação Brasileira de Reciclagem Animal (Abra), Decio Coutinho, exemplifica que 28% do biodiesel produzido no país em 2018 utilizou gordura animal como insumo.

— Para a indústria, nossa matéria-prima é lixo, mas ela precisa tirar (o lixo) de lá. O sistema de abate em escala não seria possível sem a reciclagem. Então, um sempre vai depender do outro — diz Coutinho, que falou sobre o assunto na 14ª Jornada Nespro, na última terça-feira, e na sexta-feira, no 16º Agrimark Brasil, do I-Uma, ambos em Porto Alegre.

Iniciativa reduz custos e evita poluição do ambiente

Segundo o dirigente, muitos produtores se assustam quando percebem que o animal criado retorna como alimento para outros animais. Se o tema é desconhecido para parte dos pecuaristas, está mais distante ainda do público urbano. Esse é justamente um dos objetivos para os próximos anos: fazer o serviço ser mais próximo das pessoas.

— É um mercado que beneficia a sociedade como um todo. Sem a reciclagem, o material iria, possivelmente, para aterros sanitários, o que traria mais custos e poderia poluir solo, ar. Além das doenças que poderiam ser transmitidas — explica Coutinho.

O dirigente ressalta que a matéria-prima vem de estabelecimentos fiscalizados por autoridades sanitárias oficiais.

No país, em 2018, foram processados 12,5 milhões de toneladas de resíduos, empregando cerca de 54 mil pessoas. O Produto Interno Bruto (PIB) do setor, segundo a associação, chegou a R$ 8 bilhões. O RS está em terceiro entre os Estados com maior número de empresas instaladas no ramo de reciclagem — são 15 em solo gaúcho, conforme a entidade. Santa Catarina e Paraná aparecem como os primeiros da lista.

Do total fabricado no país, apenas 3,5% vai para exportação. Mas a Abra projeta crescimento para 2019 e vem discutindo uma possível abertura ou reabertura de mercado com 13 países. Vietnã e Chile, que utilizam os produtos na ração de pescado, são importantes compradores.

Resíduo por animal
(em percentual do total de peso)
Pescado – 45%
Bovino – 38%
Suíno – 20%
Aves – 24%

Exportação também é o foco do Grupo Fasa, um dos principais do ramo no país, com origem no Rio Grande do Sul. Segundo o diretor comercial, Robinson Henrique Huyer, a empresa, que tem quatro unidades no RS, recolhe material em cerca de 5 mil pontos no Estado — há outras plantas espalhadas em SC, MG e MS:

— É um mercado que vem crescendo. Nosso principal desafio é a exportação: hoje 30% do que produzimos vai para fora, principalmente para o Chile e países da Ásia.

O grupo coloca 50 mil toneladas de produto no mercado interno por mês. Os resíduos se transformam em farinhas — como de carne, ossos, sangue e penas —, óleos, graxa e sebo.

Fonte: Abra e Zero Hora.

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