A morte de Olacyr de Moraes em 2015 encerrou a história de um dos empresários mais influentes da economia brasileira do século XX.
O “Rei da Soja”, como ficou conhecido, transformou milhões de hectares do Cerrado em terras produtivas e acumulou uma fortuna de US$ 1,2 bilhão antes de ver seu império desmoronar sob o peso de uma dívida estimada em US$ 1 bilhão.
Nascido em 1931 em Itápolis, no interior de São Paulo, Olacyr era filho de pais libaneses que chegaram ao Brasil sem grandes posses.
Na infância, mudou-se para São Paulo e aprendeu negócios ajudando o pai na venda de máquinas de costura, adquirindo uma visão prática da economia.
Do transporte de pedras ao império da soja
Em 1950, aos 19 anos, Olacyr fundou com o pai e o irmão Odimir uma empresa que transportava pedras para pavimentação de ruas em São Paulo.
A terceirização das obras públicas abriu caminho para a expansão na construção civil.
Em 1957, nasceu a Constran, dando início a um império que chegaria a 40 empresas e 25 mil funcionários em seu auge.
A empresa floresceu durante o desenvolvimentismo de Juscelino Kubitschek, quando o Brasil investia maciçamente em energia, transportes e infraestrutura.
O regime militar que se seguiu acelerou ainda mais o crescimento, especialmente no período do “milagre econômico” entre o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970.
Rodovias, pontes, hidrelétricas e os primeiros trechos do Metrô de São Paulo saíram dos canteiros de obra de Olacyr.
Os lucros da construtora deram a Olacyr acesso ao trânsito político e familiaridade com a relação entre a iniciativa privada e o investimento público.
A diversificação para o agronegócio
Com as riquezas acumuladas na construção, Olacyr investiu em novos setores.
Criou o Banco Itamarati e, em 1966, fundou a Orpeca S.A. para criar gado no Mato Grosso, aproveitando incentivos fiscais oferecidos pela Superintendência para o Desenvolvimento da Amazônia.
Essas apostas diversificadas o preparavam para o grande salto que chegaria na década seguinte.
O reinado no Cerrado
A virada para o agronegócio que o consagraria começou em 1973. Uma quebra de safra nos Estados Unidos, causada por enchentes do rio Mississippi, fez os preços internacionais da soja dispararem.
Enquanto concorrentes hesitavam, Olacyr ampliou a aposta, aproveitando o crédito abundante oferecido pelo regime militar para a ocupação do Centro-Oeste.
Por meio da Itamarati Agropecuária, comprou 50 mil hectares de terras no Mato Grosso e, mais tarde, criou a Fazenda Itamarati Norte, com 110 mil hectares, expandindo sua presença no Cerrado.
Nas propriedades da Itamarati, importou máquinas modernas e sementes norte-americanas e, em parceria com universidades e a Embrapa, desenvolveu cultivares adaptados às condições do país.
Em suas fazendas, realizou aproximadamente 10 mil pesquisas e cruzamentos genéticos, que deram origem a variedades como o algodão ITA-90.
Na década de 1980, o império alcançou o auge, e a fortuna atingiu US$ 1,2 bilhão. Com isso, Olacyr se tornou o primeiro brasileiro na lista de bilionários da revista Forbes.
Em 2002, a Fazenda Itamarati Norte foi arrendada ao grupo Amaggi. Em 2004, a Fazenda Itamarati foi vendida ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária para se tornar o maior assentamento do Brasil, com mais de 17 mil pessoas.
A ambição que levou à ruína
O sucesso, porém, o levou a ambições cada vez maiores. Olacyr identificava no “custo Brasil” o principal entrave à competitividade de sua produção agrícola.
Olacyr viu na Ferronorte a solução para conectar o Cerrado ao Porto de Santos, reduzindo custos de transporte rodoviário.
Lançada como primeira grande ferrovia privada do país, o empreendimento exigiu investimentos astronômicos durante a instabilidade econômica dos anos 1990.
A dependência de apoio governamental drenava as reservas do grupo conforme as receitas não acompanhavam as despesas.
As dívidas acumuladas ao longo dos anos forçaram a empresa a realizar vendas sistemáticas de ativos para honrar seus compromissos financeiros.
Em 1996, o Banco Itamarati foi vendido ao BCN, que, em 1997, foi adquirido pelo Bradesco. Em 2011, Olacyr descobriu uma jazida de tálio na Bahia, em uma tentativa de recuperação financeira, mas o golpe já havia sido desferido.
Em abril de 2014, o motorista de Olacyr matou o ex-senador boliviano Andres Fermin Guzmán, diretor internacional da Itaoeste, que supostamente explorava o empresário com promessas de negócios minerais.
Nos últimos anos, Olacyr se descrevia como “um homem rico, mas sem dinheiro” e culpava seu “pioneirismo” pelas perdas que enfrentou. Morreu em junho de 2015, aos 84 anos, de câncer de pâncreas.
Um legado de contradições
A trajetória de Olacyr de Moraes não se resume à acumulação e à perda de uma fortuna.
Ela reflete as transformações, os avanços e as contradições da economia brasileira ao longo de sete décadas.
Sua história mostra como o país cresceu em períodos de otimismo, prosperou com incentivos governamentais e tropeçou em suas próprias ambições.
O “Rei da Soja” deixou marcas na agricultura brasileira e expôs os riscos de um crescimento baseado em ambições cada vez maiores.













