A China anunciou um plano para reduzir sua dependência de alimentos importados e buscar maior autossuficiência alimentar até 2030. A estratégia afeta diretamente fornecedores brasileiros de soja e milho.
O tema também foi tratado pelos Ministérios da Agricultura e do Comércio, citados na reportagem original.
A estratégia alcança ainda a carne, produto em que o Brasil ocupa posição de destaque entre os exportadores para o país asiático.
O 15º Plano Quinquenal, publicado no início de 2026, formaliza essa mudança de rota com metas específicas para o próximo quinquênio. Já neste ano, a China impôs cotas de importação de carne bovina a diversos países.
A medida inclui o Brasil e sinaliza que a política deixou o papel e virou ação concreta.
Metas de autossuficiência alimentar da China
A frase do presidente Xi Jinping resume a filosofia por trás da política: “A tigela de arroz do povo chinês tem que estar firme nas próprias mãos, cheia principalmente de comida chinesa.”
Essa orientação leva a China a elevar sua produção de grãos para 725 milhões de toneladas anuais até 2030, em comparação com pouco menos de 715 milhões no ano passado.
Apesar da meta, obstáculos geográficos limitam o que Pequim pode alcançar sozinha.
Regiões montanhosas, áridas ou desérticas cobrem boa parte do território chinês, e o país concentra menos de 5% da água doce disponível no planeta.
Por isso, o governo chinês deve avançar principalmente por ganhos de produtividade, recorrendo a melhoramento genético de sementes.
O avanço dependerá também de maquinário mais avançado e inovação tecnológica.
Números do Plano Quinquenal
Entre os objetivos do documento estão elevar de 70% para 85% a autossuficiência em carne bovina.
E ovina e aumentar de 64% para 67% a contribuição da ciência e da tecnologia no desenvolvimento agrícola.
A China também busca reduzir de cerca de 14% para menos de 10% a participação do farelo de soja importado na ração animal até 2030.
Além de produzir ao menos 95% dos grãos básicos, como arroz e trigo, dentro do próprio território.
Em leite, a meta de autossuficiência é de 70% até 2030.
Impacto e adaptação para o Brasil
A China estabeleceu em janeiro uma sobretaxa de 55% sobre importações de carne bovina brasileira que ultrapassem a cota de 1,1 milhão de toneladas. Em julho, esse limite já havia sido batido.
As restrições impostas pela China já impactam as exportações brasileiras de carne bovina por meio das cotas.
O especialista também recomenda diversificar os destinos das exportações para reduzir a vulnerabilidade a decisões unilaterais de Pequim.
A China também impôs cotas a outros países exportadores de carne. Não apenas ao Brasil, sinalizando que a política faz parte de uma estratégia mais ampla de substituição de importações.
O Brasil já abriu mais de 200 novos mercados em 2025, sendo quase 20 deles para carne bovina.
Capacidade de execução chinesa
Larissa Wachholz, que acompanha a política pública chinesa há anos, não subestima a capacidade de Pequim de cumprir as metas que estabelece.
Quando a China se compromete a fazer algo e aplica esforços em tecnologia, educação e recursos financeiros, consegue obter resultados consistentes.
O Brasil permanecerá importante para a China justamente porque, como o país asiático reconhece, não dá para inventar terra e água.
Mesmo com um território maior que o brasileiro, a China dispõe de uma parcela limitada de terras agrícolas.
Investimentos chineses no Brasil, como a ampliação do terminal da COFCO no Porto de Santos, a compra de locomotivas e vagões.
E os estudos para a ferrovia bioceânica, sinalizam que Pequim não pretende abandonar seus fornecedores, mas exigir maior qualidade e valor agregado.
A China produz cerca de 7,8 milhões de toneladas de carne bovina, mas consome entre 11 milhões e 12 milhões.
Esse déficit estrutural, que a OCDE projeta em 4 milhões de toneladas até 2032, não pode ser eliminado apenas com a produção doméstica.
A cota administra o ritmo das importações, mas não fecha a porta definitivamente.













