O açúcar chegou ao patamar mais alto em 16 meses na bolsa de Nova York, movimento puxado pelos efeitos do El Niño sobre as principais regiões produtoras globais.
Diante do cenário de oferta mais restrita, fundos especulativos passaram a ajustar suas posições, contribuindo para a disparada da commodity.
Índia e Tailândia concentram os efeitos mais severos do fenômeno climático, mas o Centro-Sul brasileiro também não fica de fora dessa equação.
A mudança no clima já provoca atrasos na colheita da cana e reduz a quantidade de açúcar extraída da planta.
Para o vencimento de outubro, o açúcar demerara foi cotado a 17,47 centavos de dólar por libra-peso ao fim do pregão, valor que não se via desde abril de 2025. Em uma única sessão, a cotação subiu 60 pontos, e o mês acumulou alta de 281 pontos.
Açúcar em alta com impacto do El Niño
Um valor abaixo de 15 centavos de dólar a libra-peso marcou a maior parte dos últimos 12 meses, até 31 de julho.
Os contratos com vencimento em março, por sua vez, encerraram o pregão em 18,46 centavos de dólar a libra-peso.
Nos meses anteriores, consultorias já vinham apontando uma demanda superior à oferta por causa do fenômeno climático, mas o mercado ainda resistia a essa leitura.
Agora, os fundamentos de escassez aparecem refletidos nas cotações negociadas.
Índia pode virar importadora
Notícias recentes sobre a Índia pesaram na formação dos preços: o governo indiano avalia importar açúcar sem cobrança de tarifa, conforme informou a Reuters.
Essa possibilidade inverteria o papel do país, que nos últimos anos figurou como exportador relevante da commodity.
As chuvas de monção diminuíram em julho, depois que o El Niño foi confirmado em junho. Episódios fortes do fenômeno costumam reduzir justamente esse tipo de precipitação.
Maharashtra, principal Estado produtor de cana da Índia, já enfrentava seca “excepcional” em julho, segundo o India Drought Monitor.
O quadro se repetiu na semana seguinte em Uttar Pradesh, outro grande produtor do país.
Diante do cenário desfavorável, usinas indianas decidiram antecipar de outubro para agosto o início da moagem de cana.
A antecipação também ajudou a puxar os preços para cima.
Tailândia e Ásia sob risco
A usina tailandesa Khon Kaen Sugar (KKS) teme que o El Niño interrompa as chuvas na próxima semana, durante o desenvolvimento da cana. A Tailândia é o segundo maior exportador de açúcar, atrás apenas do Brasil.
Analistas apontam para previsões de produção menores em outros países asiáticos.
O calor extremo também ameaça as lavouras de beterraba na Europa, matéria-prima para açúcar no continente.
Dados do Ministério da Agricultura indicam que a moagem de cana da segunda quinzena de julho no Centro-Sul foi 8,4% menor na comparação anual.
A produção de açúcar foi 17,6% inferior, e a região já produziu 2,4 milhões de toneladas a menos nesta safra.
Maurício Muruci, analista da Safras & Mercado, projeta uma frustração de 10 milhões de toneladas na safra que começa em outubro por causa do El Niño.
Efeitos já aparecem no Brasil
Fábio Marin, que dá aulas de engenharia de Biossistemas na Esalq/USP e coordena o Sistema Tempocampo, avalia que o El Niño deve ganhar força e começar a impactar a produção do Centro-Sul a partir de agora.
Chuvas acima da média já atingiam o interior de São Paulo desde o começo do ano, interrompendo colheitas e reduzindo o teor de sacarose.
Esse teor menor dificulta a produção de açúcar, embora as chuvas melhorem a produtividade por hectare.
Marin calcula que a colheita acumula 28 dias de atraso no Centro-Sul. “Em setembro deve voltar a chover, aí talvez não se consiga colher o que falta e vai ter cana bisada [deixada para moer em 2027]”, afirmou.
Dados históricos mostram que o El Niño favorece os canaviais do Centro-Sul: em 90% dos anos de El Niño forte, a produtividade fica acima da média.













