Em Roterdã, nos Países Baixos, uma fazenda construída sobre o rio Nieuwe Maas leva a produção de alimentos para dentro da cidade. A Floating Farm, primeira fazenda leiteira flutuante do mundo, começou a operar em 2019 com o objetivo de produzir perto dos consumidores, reduzir desperdícios e encurtar o transporte de alimentos.
Com cerca de 2 mil m² de área construída, a estrutura reúne criação dos animais, alimentação, ordenha, processamento de leite e manejo de esterco. A estrutura de 27 por 27 metros abriga cerca de 40 vacas da raça Maas-Rijn-IJssel e produz aproximadamente 600 litros de leite por dia. Os três níveis concentram áreas para os animais, processamento e manejo de dejetos.
A ideia surgiu após Minke e Peter van Wingerden observarem os problemas de abastecimento causados pelo furacão Sandy em Nova York, em 2012. Roterdã foi escolhida pela relação com a água e pela vulnerabilidade a inundações. A estrutura acompanha as oscilações do nível do rio e testa uma alternativa para produzir alimentos em cidades com pouco espaço agrícola.
Automação e tecnologia na fazenda flutuante
Ordenha e manejo automatizados:
- Robô de ordenha: as vacas entram voluntariamente no equipamento quando precisam ser ordenhadas.
- Coleta de esterco: outro sistema automatizado percorre o estábulo e leva os dejetos para separação.
- Processamento rápido: segundo os responsáveis, o sistema pode reduzir em cerca de 60% as emissões associadas ao manejo do esterco.
- Reaproveitamento: a fração sólida pode ser transformada em fertilizantes e vasos para plantas.
Resíduos urbanos na alimentação:
- Bagaço de cervejarias de Roterdã.
- Farelo de moinhos de Schiedam.
- Grama retirada de campos esportivos.
- Cascas de batata de uma processadora local.
- Outros subprodutos da indústria alimentícia.
- Também foram testados restos de frutas, verduras e pão provenientes de cozinhas de empresas e restaurantes.
- A proposta é transformar resíduos com valor nutricional em alimento para as vacas e inseri-los novamente na cadeia produtiva, em um modelo de agricultura circular.
Leite processado na própria fazenda:
- Produção de leite, iogurte, manteiga e queijos no próprio local.
- Parte do espaço abaixo da linha d’água é utilizada para maturação dos queijos.
- A produção é comercializada principalmente em Roterdã, reduzindo as distâncias entre produção e consumo.
Água, energia e agricultura vertical:
- Água da chuva é captada e tratada para uso na fazenda.
- Painéis solares instalados em uma estrutura flutuante próxima fornecem parte da energia.
- O espaço também recebeu iniciativas de agricultura vertical, com cultivo de microvegetais e ervas.
- Em 2025, o projeto anunciou expansão desse cultivo para aumentar a oferta de produtos frescos a restaurantes locais.
Um modelo para cidades com pouco espaço
A Floating Farm parte de um problema crescente: as cidades concentram cada vez mais pessoas, enquanto a produção de alimentos continua dependendo de áreas rurais muitas vezes distantes dos consumidores.
Ao levar a produção para dentro da área urbana, o projeto tenta encurtar essa cadeia. A cidade fornece resíduos que podem alimentar os animais, a fazenda produz leite e derivados e o esterco é processado para gerar novos produtos.
O modelo ainda é experimental e apresenta limitações de escala e custo. A proposta não é substituir a pecuária tradicional, mas testar como automação, reaproveitamento de resíduos, agricultura urbana, energia renovável e processamento local podem funcionar juntos.













