Uma das relações mais incomuns entre seres humanos e animais selvagens no Brasil acaba de ganhar reconhecimento nacional. O Iphan aprovou o registro da pesca artesanal com auxílio de botos no Sul do Brasil como Patrimônio Cultural Imaterial, em decisão unânime do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural. A prática envolve pescadores e botos que cooperam espontaneamente para capturar cardumes de tainha e é transmitida entre gerações.
A tradição ocorre principalmente em Laguna, em Santa Catarina, e na região do rio Tramandaí, no Rio Grande do Sul. O reconhecimento considera não apenas a captura dos peixes, mas também os conhecimentos, técnicas, formas de comunicação e modos de convivência desenvolvidos pelos pescadores ao longo do tempo.
Como os botos ajudam na pesca
Cercamento dos cardumes:
- Os botos conduzem cardumes de tainha em direção aos pescadores.
- Os animais sinalizam a localização dos peixes e o momento adequado para o lançamento das tarrafas.
- Movimentos específicos na superfície funcionam como sinais interpretados pelos pescadores.
Comunicação entre espécies:
- A pesca depende da capacidade dos pescadores de reconhecer o comportamento dos botos.
- Os chamados “botos bons” são identificados individualmente por características físicas e comportamentais.
- Muitos recebem nomes próprios e são reconhecidos pelos pescadores após anos de convivência.
- Pesquisas descrevem o processo como uma forma de coaprendizagem e desenvolvimento de habilidades entre humanos e golfinhos.
Eficiência:
- Segundo relatos apresentados ao Iphan, quando os botos não participam, um pescador pode precisar realizar dezenas de lançamentos da tarrafa.
- Com o auxílio dos animais, a quantidade de peixes capturados pode aumentar significativamente.
Uma tradição que atravessa gerações
Reconhecimento anterior:
- Em 2018, a pesca artesanal com auxílio de botos foi reconhecida como patrimônio imaterial de Santa Catarina.
- Em 2020, a prática também foi reconhecida como de relevante interesse cultural no Rio Grande do Sul.
- Laguna possui ainda o título de Capital Nacional do Boto Pescador, enquanto o animal é considerado patrimônio natural do município desde 1999.
Pesquisa e documentação:
- O processo nacional contou com pesquisas realizadas em parceria entre o Iphan e a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
- O levantamento documentou os saberes dos pescadores, os territórios da pesca, a relação com os animais e os desafios enfrentados pelas comunidades.
Patrimônio cultural e conservação caminham juntos
O reconhecimento pelo Iphan não protege apenas uma técnica de pesca. Ele também chama atenção para a necessidade de preservar o ambiente onde essa interação acontece e os próprios animais que participam dela. A continuidade da tradição depende da sobrevivência dos botos, da disponibilidade de tainhas e da manutenção dos territórios utilizados pelas comunidades pesqueiras.
A pesca colaborativa se tornou, assim, um dos exemplos mais raros de cooperação espontânea entre seres humanos e animais selvagens. Os pescadores utilizam conhecimentos transmitidos entre gerações para interpretar os sinais dos botos, enquanto os animais aproveitam a concentração dos peixes junto às redes para capturar parte do cardume.













