O aquecimento atípico das águas do Pacífico, que avança desde junho, divide o mercado entre a expectativa de ganhos para o varejo e os riscos potenciais para o agronegócio.
A análise das teleconferências de resultados do segundo trimestre mostra expectativas distintas entre as 76 companhias do Ibovespa.
Varejistas planejam aproveitar o aumento da temperatura, enquanto empresas de climatização projetam expansão do faturamento.
Produtores rurais e o setor financeiro, porém, enfrentam riscos potenciais.
O fenômeno provoca estratégias opostas entre as empresas. A SLC Agrícola antecipa plantios e reforça coberturas de solo para reduzir perdas.
A Minerva enfrenta pressão sobre as margens com a redução das pastagens. O Banco do Brasil mobiliza profissionais de ciências agrárias para monitorar lavouras.
As seguradoras rurais, porém, têm dificuldade para mapear os efeitos do fenômeno na sinistralidade.
Varejo aquecido por altas temperaturas: El Niño
O Magazine Luiza destacou que as vendas de ar-condicionado, equipamentos de ventilação e produtos de refrigeração aumentam com o calor.
A indústria de climatização acompanha o movimento. A Abrava, associação do setor, projeta faturamento de R$ 55,62 bilhões em 2026, alta de 10% ante 2025. O setor de bebidas também se beneficia do aquecimento.
A Bloomberg prevê receita de R$ 43,4 bilhões para o setor de cerveja em 2026, avanço de quase 8% ante 2025.
O crescimento também será impulsionado pelo consumo durante a Copa do Mundo.
O CEO do Assaí, Belmiro Gomes, identificou na volatilidade das commodities provocada pelo fenômeno climático uma oportunidade para ampliar as margens, com potencial de repasse de preços ao consumidor à medida que o aquecimento continua.
Agronegócio enfrenta ameaças múltiplas
Para o agronegócio, o cenário é inverso. Historicamente, o El Niño causa seca no Centro-Oeste e quebra de safra.
O setor financeiro sofre impacto direto porque oferece crédito ao campo e enfrenta maior risco de calotes e inadimplência.
Transportes, especialmente ferrovias e hidrovias, também tendem a sofrer, pois com quebra de safra há menos volume para deslocar.
A Rumo afirmou que o El Niño tradicionalmente atinge todas as regiões e sistemas de transportes.
A SLC Agrícola historicamente perde 7% na produtividade de soja em anos com El Niño e 10% no algodão de segunda safra.
Para 2027, a empresa antecipou o plantio de algodão na Bahia e reforçou coberturas de solo para reter umidade.
Setor financeiro se mobiliza
O Banco do Brasil enviou 280 profissionais de ciências agrárias para monitorar lavouras em tempo real.
A instituição incentiva os produtores a contratar múltiplos seguros (Proagro e seguro normal) e investir em irrigação.
O banco incorporou o El Niño em suas provisões para devedores duvidosos de 2026.
Também mantém discussões com o governo federal sobre fundos de catástrofe para as carteiras de seguros.
Castigado por juros altos e endividamento recorde, o setor varejista vê no El Niño uma das poucas janelas de oportunidade.
O impulso, porém, é insuficiente para reverter a crise que resultou em ao menos cinco pedidos de recuperação judicial este ano.













