Um galpão de fazenda na região de Gippsland, na Austrália, virou uma destilaria improvisada, cheia de recipientes de vidro e barris de carvalho antigos.
Ali, o agrônomo Ross Shaw transformou trigo vermelho e beterraba açucareira em vodka e destilado artesanal, produzindo 400 garrafas de cada bebida em um ano.
Ele pertence à sexta geração de uma família de produtores rurais, cultiva grãos e cria gado na propriedade familiar.
Como boa parte do trigo produzido na região serve apenas para ração animal, Shaw encontrou uma forma de agregar valor ao que já colhia.
Transformação de colheitas em bebidas na fazenda
Nos últimos dois anos, o agrônomo estudou whisky e destilados. Um lote de trigo vermelho despertou a ideia de transformá-lo em vodka.
Depois de alguns testes, surgiu uma receita com leve dulçor de mel e um toque de grão que marca o paladar.
A beterraba açucareira trouxe outro desafio, ligado à própria história da cidade de Maffra, erguida em torno da indústria de açúcar de beterraba.
Shaw viu nessa possibilidade de transformar qualquer fonte de amido ou açúcar em álcool uma oportunidade de resgatar a cultura tradicional da beterraba.
O destilado resultante tem sabor terroso e, segundo o produtor, combina bem com coquetéis picantes ou com cerveja de gengibre e limão.
Obstáculos até acertar a receita
Encontrar sementes de beterraba foi o primeiro entrave: elas precisaram ser importadas da Europa.
Sem o equipamento adequado, Shaw colheu as raízes manualmente até encontrar um processo funcional.
Segundo Shaw, as bebidas levam tempo para ficar prontas, e produzir uma garrafa de whisky demanda cerca de três anos, um para cultivar o grão.
E ao menos dois para o envelhecimento em barril, enquanto os destilados claros seguem direto para o mercado, sem passar pelo processo de descanso na madeira.
Um movimento que ganha força no país
Segundo Sebastian Costello, responsável pelo desenvolvimento do setor na Spirits Victoria Association, essa nova geração de destiladores artesanais busca traduzir em sabor a identidade de cada região australiana.
Costello citou o exemplo de produtores que usam centeio cultivado na região do Mallee e testam diferentes tipos de cultura que possam ser maltados e destilados.
Para o produtor de Gippsland, o aprendizado veio pela prática e pelos experimentos, sem dominar toda a ciência por trás do processo.
A cena australiana de destilação é bastante colaborativa, permitindo que ele mantenha contatos em outras partes do país para tirar dúvidas quando surge algum problema.
Da desconfiança ao envolvimento da família
No início, os parentes receberam o novo empreendimento com certa desconfiança. Hoje todos participam de alguma forma, incluindo o pai, que se dedica a ajudar na maltagem da cevada.
O produtor planeja aumentar a produção de whisky, incorporando novos equipamentos e refinando as etapas de fabricação aos poucos.
Ainda restam 400 garrafas de vodka de trigo vermelho e outras 400 do destilado de beterraba à espera de comprador.
Enquanto a demanda cresce, o galpão da fazenda segue sendo o laboratório onde cada nova safra ganha chance de se tornar uma bebida diferente.













