O Brasil pode se beneficiar da decisão do governo de Donald Trump de ampliar temporariamente a entrada de carne bovina nos Estados Unidos. A medida acrescenta 300 mil toneladas à cota tarifária para cortes magros destinados à produção de carne moída, com vigência de 90 dias a partir de 1º de setembro. A abertura ocorre em um momento de forte pressão sobre o mercado americano e cria espaço adicional para fornecedores como o Brasil.
A decisão interessa diretamente aos frigoríficos brasileiros, que já estão entre os principais fornecedores de carne bovina aos Estados Unidos. No primeiro semestre de 2026, o Brasil exportou 234 mil toneladas ao país. A expectativa de aumento dos embarques também movimentou as ações de empresas brasileiras do setor, diante da possibilidade de conquistar uma parcela maior da nova cota.
Rebanho americano em nível histórico
Os Estados Unidos enfrentam uma forte restrição na oferta de gado. O rebanho chegou em 2026 ao menor nível em cerca de 75 anos, pressionado por secas, incêndios, custos elevados e redução do número de animais.
Com a oferta limitada e a demanda elevada, a carne moída atingiu preço recorde de US$ 6,89 por libra em julho. A nova cota de 300 mil toneladas será dividida em três parcelas de 100 mil toneladas, com a primeira liberada em 1º de setembro e o programa previsto até 30 de novembro ou até o esgotamento do volume.
O Brasil na corrida pelo mercado americano
O Brasil já ocupa posição relevante no mercado americano. Nos primeiros cinco meses de 2026, respondeu por 22,3% das importações de carne bovina dos Estados Unidos, mantendo uma participação expressiva entre os fornecedores.
O país, porém, enfrenta restrições de acesso ao mercado. O Brasil integra o grupo chamado “Outros Países”, cuja cota caiu de 65 mil para 52 mil toneladas em 2026 após parte do volume ser destinada ao Reino Unido. Concorrentes como Austrália, Nova Zelândia e Argentina possuem mecanismos específicos de acesso ao mercado americano.
A nova medida pode mudar temporariamente esse cenário. As 300 mil toneladas adicionais serão destinadas justamente ao grupo “Outros Países”, permitindo que o Brasil dispute esse volume com os demais fornecedores elegíveis.
Oportunidade além dos 90 dias
A demanda americana por carne importada pode permanecer elevada após a medida emergencial. O USDA estima 2,77 milhões de toneladas de importações em 2026, com volume semelhante em 2027.
Nesse cenário, o Brasil ganha espaço: no primeiro semestre, embarcou 1,7 milhão de toneladas, alta de 15,5%, e faturou US$ 9,85 bilhões, enquanto o preço médio da carne enviada aos EUA chegou a US$ 6.141 por tonelada em julho, recorde histórico.
Segundo Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos, o país poderia ampliar ainda mais sua participação se os EUA eliminassem o sistema de cotas TRQ (Tariff-Rate Quota), aproximando suas condições das de Austrália e Nova Zelândia.
A carne brasileira também atende à demanda americana por cortes magros usados na produção de carne moída. Com o rebanho dos EUA ainda reduzido, a necessidade de importações pode continuar elevada mesmo após os 90 dias.













