Muito antes de o ser humano plantar a primeira semente e desenvolver técnicas para produzir alimentos, algumas formigas já mantinham suas próprias plantações.
Integrantes do grupo Attini cultivam fungos para se alimentar há cerca de 66 milhões de anos, em uma estratégia que atravessou milhões de anos de mudanças no planeta.
Um estudo publicado na revista Science sugere que essa prática agrícola começou logo após o impacto do asteroide que acabou com quase todos os dinossauros.
O impacto transformou a vida no planeta e criou condições ambientais que favoreceram a relação entre esses insetos e os fungos.
A Universidade do Estado de São Paulo também tratou do tema.
Quando o impacto cósmico preencheu a atmosfera de detritos e poeira, bloqueou a luz solar por anos e impossibilitou que as plantas realizassem fotossíntese.
A extinção eliminou cerca de 75% de todas as espécies que existiam até então, mas também criou uma oportunidade inesperada para as formigas se associarem aos fungos.
Esses organismos aumentavam ao consumir toda a matéria orgânica em decomposição resultante da extinção.
Parceria entre formigas e fungos há 66 milhões de anos
Os fungos prosperaram naquele ambiente, alimentando-se de folhas mortas e plantas em decomposição.
Um ancestral dessas formigas passou a cultivá-los em suas colônias e se beneficiou da abundância desses organismos no ambiente pós-impacto.
Pesquisadores do Museu Smithsonian de História Natural, e da Universidade Federal de Uberlândia e do Instituto de Biociências da Unesp analisaram dados genéticos de centenas de espécies de fungos e formigas para identificar quando as linhagens dos dois organismos se entrelaçaram na história evolutiva.
Ted Schultz, curador de formigas do Museu Smithsonian de História Natural, disse ao Super que essas formigas praticam a agricultura há muito mais tempo do que a existência dos humanos e que há lições valiosas a aprender com o sucesso desses insetos.
Os dados genéticos mostram que o grupo desenvolveu técnicas mais avançadas de cultivo há cerca de 27 milhões de anos, quando passou a se alimentar quase exclusivamente das próprias plantações.
Quem são as formigas fazendeiras
Pertencentes ao grupo Attini, essas formigas recebem vários nomes: formigas cortadeiras, formigas agricultoras e, no Brasil, saúvas.
Algumas colônias formam ninhos com até sete milhões de indivíduos e são tão bem-sucedidas na agricultura que se tornaram pragas temidas em plantações nas Américas e no Caribe.
Há 247 espécies de formigas cultivadoras de fungos espalhadas pelas Américas e pelo Caribe.
Pesquisadores da Unesp reduziram ainda mais a margem de erro sobre quando esse cultivo começou.
Os cientistas organizaram essas espécies em quatro grupos distintos, de acordo com as estratégias de cultivo que cada uma adota.
As formigas cortadeiras, classificadas no grupo mais avançado, cortam folhas e grama para alimentar seus fungos, criando um sistema de produção alimentar que funcionou sem interrupção por dezenas de milhões de anos.
A trajetória dessas formigas mostra que a agricultura não é uma estratégia exclusivamente humana.
Em uma escala de tempo que ultrapassa dezenas de milhões de anos, esses pequenos insetos construíram sistemas de cultivo capazes de sobreviver a grandes transformações ambientais e permanecer ativos até os dias atuais.













