Uma bactéria até então desconhecida pela ciência foi identificada em bovinos da raça Hereford criados no bioma Pampa, no Rio Grande do Sul. O microrganismo, chamado Moraxella tarda, foi encontrado em animais com sinais de ceratoconjuntivite infecciosa bovina, conhecida como “mal do olho” ou pinkeye, doença que provoca dor, inflamação e lesões nos olhos e pode comprometer o desempenho do rebanho.
Nos Estados Unidos, os prejuízos associados à enfermidade chegam a US$ 300 milhões por ano, cerca de R$ 1,6 bilhão em valores convertidos. No Brasil, ainda não existe uma estimativa nacional dos impactos econômicos da doença, o que dificulta dimensionar as perdas para a pecuária.
Nova bactéria e impacto no rebanho
- Crescimento lento: a Moraxella tarda forma colônias em cerca de 48 horas, enquanto espécies semelhantes levam aproximadamente 24 horas.
- Identificação: foi encontrada na mucosa nasal de bovinos com sinais iniciais de ceratoconjuntivite.
- Diferença genética: apresentou apenas 79% de similaridade com espécies próximas, como Moraxella bovis e Moraxella bovoculi, além de diferenças bioquímicas e fisiológicas que permitiram classificá-la como uma nova espécie.
- Causa da doença: a M. tarda não é a única responsável pelo “mal do olho”, que envolve diferentes microrganismos e fatores ambientais.
- Impacto produtivo: a dor pode reduzir o consumo de alimento e água e a movimentação dos animais, prejudicando o ganho de peso.
- Perda de peso: estudos nos EUA apontam redução de 13,6 a 18,1 kg no ganho de peso. Quando um olho é afetado, a diferença pode chegar a 9 kg e, nos casos que atingem os dois olhos, a 30 kg em 205 dias.
- Maior risco: bezerros próximos à desmama são especialmente vulneráveis, pois o ganho de peso nessa fase influencia o desempenho futuro e a rentabilidade da criação.
O que a descoberta abre para o setor
A pesquisa reuniu Embrapa, Universidade Federal de Juiz de Fora e Instituto Biológico de São Paulo, com amostras coletadas em 2018, no Rio Grande do Sul. A bactéria passou por análises bioquímicas, fisiológicas e genômicas nos laboratórios da Embrapa Gado de Leite e Embrapa Gado de Corte, com colaboração do Instituto Adolfo Lutz. Amostras também foram depositadas em coleções microbiológicas internacionais para confirmar a classificação.
A descoberta da Moraxella tarda amplia o conhecimento sobre a ceratoconjuntivite bovina e pode contribuir para novos diagnósticos e estratégias de prevenção, incluindo futuras vacinas. Os pesquisadores ainda investigam o papel da bactéria na doença e sua interação com outras Moraxella, usando córneas bovinas preservadas em laboratório. O estudo foi publicado em julho de 2026 na revista Current Microbiology.













