A indústria de moagem de trigo enfrenta custos mais altos e menor disponibilidade do cereal, aumentando a pressão sobre os preços de pão, massas e biscoitos. Com margens apertadas, moinhos e fabricantes têm menos espaço para absorver novos aumentos sem repassá-los ao consumidor.
O principal fator é a queda da produção brasileira. Segundo o 11º Levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a safra 2025/26 deve somar 5,8 milhões de toneladas, queda de 26,2% em relação ao ciclo anterior. A área cultivada também recuou 20,4%, para 1,92 milhão de hectares.
A oferta menor ocorre enquanto o consumo brasileiro supera 13 milhões de toneladas por ano, aumentando a dependência de importações. O mercado externo, porém, também enfrenta incertezas, com custos elevados e dificuldades logísticas provocadas pelo conflito no Mar Negro.
Menor oferta interna de trigo força importações mais caras
As condições climáticas no Sul agravam o cenário. No Paraná, as primeiras colheitas apresentam problemas relacionados a doenças e excesso de chuvas. No Rio Grande do Sul, as precipitações prejudicam o desenvolvimento das lavouras e podem afetar a produtividade e a qualidade industrial do trigo.
Essa qualidade é essencial para a fabricação de pães, massas e outros alimentos. Com menor disponibilidade de cereal nacional adequado, os moinhos podem precisar recorrer a fornecedores mais distantes, elevando custos de aquisição e transporte.
A Argentina, principal fornecedora de trigo para o Brasil, também entra no radar. O USDA projeta redução de 19% nas exportações argentinas no ciclo 2026/27, enquanto problemas de qualidade aumentam a preocupação com a disponibilidade do cereal adequado para moagem.
Moinhos têm pouco espaço para absorver custos
Os moinhos operam com espaço cada vez menor para recompor margens. Quando tentam elevar os preços da farinha para repassar os aumentos, encontram resistência de fabricantes de alimentos que também enfrentam margens apertadas. As duas partes têm dificuldade para absorver os custos, e os moinhos reduzem o ritmo de moagem para administrar estoques.
Relatório da TF Agroconsultoria mostra que praticamente não há mais oferta de trigo nacional disponível, deixando a indústria ainda mais dependente de importações caras. Não há risco de desabastecimento de farinha de trigo, segundo o setor, mas o aumento dos custos de produção já leva empresas a adotar medidas de racionalização para preservar resultados.
Reajustes devem chegar gradualmente às gôndolas
O aumento do custo do trigo não significa que pão, massas e biscoitos subirão imediatamente na mesma proporção. O impacto depende dos estoques, contratos de compra, negociações entre moinhos e fabricantes e evolução das cotações internacionais.
A pressão tributária também preocupa o setor. A Lei Complementar 224/2025 determinou redução linear de 10% em incentivos e benefícios tributários federais, com efeitos a partir de abril de 2026, incluindo benefícios relacionados ao PIS/Pasep e à Cofins.
Assim, novos reajustes podem chegar ao consumidor caso os custos do trigo permaneçam elevados. O tamanho e a velocidade do repasse dependerão principalmente da próxima safra brasileira, das importações e das condições do mercado internacional.













