Tomates cultivados com um composto orgânico produzido a partir de restos de alimentos e resíduos de jardinagem podem ficar mais doces e aromáticos depois de semanas armazenados.
É o que aponta uma pesquisa realizada na Austrália, que acompanhou os frutos desde a colheita até um período mais próximo das condições enfrentadas pelo consumidor.
O estudo foi conduzido por pesquisadores da Universidade de Queensland e buscou reproduzir o caminho percorrido pelo tomate entre a lavoura e a mesa.
Em vez de avaliar apenas a qualidade do fruto imediatamente após a colheita, os cientistas observaram como suas características sensoriais se comportavam durante o armazenamento.
Os resultados foram publicados na revista científica npj Science of Food e indicam que o uso do composto orgânico pode influenciar características como doçura, aroma e sabor, mesmo sem provocar aumento na produtividade ou no tamanho dos frutos.
Composto orgânico incrementa doçura e aroma do tomate
Pesquisadores da Universidade de Queensland testaram o composto FOGO, sigla em inglês para Food Organics and Garden Organics.
O adubo reúne resíduos orgânicos de cozinhas e quintais recolhidos em residências e negócios da região.
A equipe dividiu uma área de cultivo em dois espaços idênticos. Um recebeu o composto FOGO incorporado ao solo; o outro não recebeu adubo.
Todas as outras práticas comerciais foram iguais: mesma variedade de semente, irrigação, colheita, armazenamento e trajeto.
Voluntários provam e reconhecem a diferença
Para medir a experiência do consumidor, os cientistas fizeram testes sensoriais em laboratório.
Os participantes não sabiam qual tratamento cada tomate havia recebido. Eles observaram, cheiraram e provaram exemplares dos dois grupos em duas ocasiões.
Na primeira avaliação, cinco dias após a colheita, os dois grupos receberam classificações semelhantes. Uma semana depois, porém, as diferenças ficaram mais claras.
Os voluntários escolheram como mais doces os tomates cultivados com o adubo orgânico, exatamente o dobro de vezes que os tomates convencionais, descritos como sem graça.
Química revela o que os sentidos já percebiam
Análises laboratoriais explicam a diferença percebida pelo paladar e pelo olfato.
Os frutos do grupo FOGO apresentavam maiores concentrações de componentes relacionados aos açúcares naturais e menores quantidades de ácido málico, substância que contribui para a acidez característica do tomate.
Os cientistas também constataram que, depois de armazenados, esses tomates concentravam mais aminoácidos associados ao umami.
Essa composição também alterou a aparência e o aroma percebidos pelos voluntários, aspectos que costumam ficar de fora de avaliações focadas apenas na produtividade agrícola.
Estudos anteriores já haviam medido o impacto do composto FOGO sobre a quantidade colhida e o vigor das plantas, mas nenhum havia investigado a experiência do consumidor.
No momento da colheita, o adubo não gerou nenhuma mudança perceptível na produtividade, no tamanho ou na aparência dos frutos.
Foi só depois de armazenados que os tomates tratados com o composto passaram a se destacar, o que dá ao achado relevância para o setor comercial.
Por que esse teste importa para a agricultura
A estratégia de simular as condições enfrentadas pelos frutos entre a fazenda e a casa do consumidor foi um dos principais diferenciais do trabalho.
A maioria dos trabalhos anteriores analisava o fruto logo após a colheita, quando ainda está em seu ponto ideal, um cenário irreal para quem compra dias depois no mercado ou supermercado.
A abordagem da Universidade de Queensland demonstrou que o adubo orgânico não aumenta a produtividade.
Mas preserva, ou até intensifica, qualidades sensoriais que definem se um tomate será lembrado como saboroso ou insosso semanas após deixar a lavoura.
Essa informação muda a fórmula econômica para produtores que buscam diferenciar sua safra no mercado.













