Em uma região onde o solo arenoso e pedregoso parece pouco favorável à agricultura, o produtor Oumarou Compaoré encontrou uma alternativa que, até poucos anos atrás, era considerada improvável: cultivar abacaxi no Sahel africano.
Sua propriedade, localizada nos arredores de Bobo-Dioulasso, no oeste de Burkina Faso, tornou-se um exemplo de adaptação agrícola em uma das áreas mais secas do continente.
A área da plantação chega hoje a 50 hectares (124 acres), um tamanho que, anos atrás, parecia impossível, quando lhe diziam que naquele terreno só cresciam algodão, milho ou sorgo.
De oportunidade durante a pandemia a negócio agrícola
Compaoré iniciou a plantação em 2018, quando muitos agricultores da região ainda diziam que aquele tipo de terreno era adequado apenas para culturas tradicionais, como algodão, milho e sorgo.
A oportunidade de mercado surgiu alguns anos depois, durante a pandemia de COVID-19. Com o fechamento das fronteiras, a oferta de abacaxi diminuiu drasticamente, enquanto os preços dispararam.
A escassez revelou uma demanda interna que poderia ser atendida pela produção local.
Abacaxi como ferramenta de soberania alimentar nacional
O abacaxi era visto como fruta de luxo, algo que apenas os vizinhos costeiros mais ricos cultivavam, muito mais caro que as mangas que crescem naturalmente fora de muitas casas.
A mudança dessa percepção ganhou força política sob o comando do capitão Ibrahim Traoré, que chegou ao poder após um golpe em 2022 e definiu a produção de alimentos como questão de soberania nacional.
Em abril deste ano, o governo suspendeu importações de arroz com objetivo explícito de estimular a produção local. Antes disso, em 2024, inaugurou duas fábricas de pasta de tomate, alimento básico do país.
A estratégia se estende até as prateleiras dos supermercados da capital: Ouagadougou ganhou seção dedicada a produtos locais, manteiga de karité, milho e farinha de mandioca, com a inscrição “Consumamos o que produzimos”.
Mais de 100 agricultores experimentam o cultivo
A iniciativa de Compaoré não ficou isolada. Em novembro, as plantações de abacaxi na região administrativa que inclui sua fazenda somavam aproximadamente 100 hectares (248 acres), informou à AP News o diretor regional de agricultura, Adanabou Eric Pascal.
Kola Jean, engenheiro agrônomo responsável pelo treinamento de novos produtores na fazenda de Compaoré, estima que mais de 100 agricultores já cultivam abacaxi ou experimentam a atividade.
Madame Kaba Séré, produtora de abacaxi na província de Houet, deixou o setor sem fins lucrativos em 2023 para se dedicar ao cultivo após cortes na ajuda internacional.
Segundo informou à AP News, e ela relembrou ter sido desencorajada desde jovem, quando lhe disseram que o abacaxi não conseguiria prosperar no Sahel, a faixa árida ao sul do Saara.
Ao ver o sucesso de Compaoré, mudou de ideia e procurou treinamento.
Desafios práticos em terra hostil
O cultivo enfrenta obstáculos reais, e o abacaxi exige investimento contínuo em irrigação e pode levar até dois anos para a primeira colheita.
Muitos produtores não conseguem sustentar esse custo e esperar esse período em uma região de chuvas escassas.
Compaoré contorna o problema irrigando parte de suas plantações com água de um poço, investimento que muitos agricultores não conseguem fazer.
Pascal Bazongo, professor de pedologia e gestão de recursos naturais da Universidade de Fada N’Gourma e especialista envolvido na fazenda de Compaoré.
Disse à AP News que os produtores encontram formas de adaptação, como irrigar com água fresca durante a noite, no período de calor intenso.
Apesar dos progressos na alimentação, Burkina Faso permanece marcado pela fome generalizada.
Uma crise de segurança que dura uma década deixou grupos jihadistas no controle de grandes áreas, interrompendo o acesso às terras e aos mercados, e milhões foram deslocados.
Agências da ONU indicam que aproximadamente 2,7 milhões de pessoas enfrentam insegurança alimentar aguda durante a estação seca anual, quando os estoques da colheita anterior se esgotam e os preços atingem picos.
Para uma população de 24 milhões, iniciativas como a plantação de abacaxi representam um caminho gradual rumo à autossuficiência que o país busca.













