Em 2017, o fazendeiro Chris Jones soltou um casal de castores em um cercado de sua propriedade, na Cornualha, sudoeste da Inglaterra. Quase uma década depois, os animais modificaram completamente parte da paisagem.
Represas, poças e canais passaram a ocupar o terreno e criaram uma espécie de sistema natural de armazenamento e circulação de água.
A transformação ajuda a reduzir o impacto das enchentes e mantém recursos hídricos disponíveis durante períodos de estiagem.
A experiência ganhou ainda mais relevância depois que o governo britânico anunciou, nesta sexta-feira, a autorização das primeiras solturas de castores selvagens na Inglaterra em séculos.
A iniciativa marca uma nova etapa dos esforços de recuperação de ecossistemas no país.
Os castores desapareceram da Inglaterra após séculos de caça, impulsionada principalmente pelo valor comercial de sua pele e de seu óleo.
Agora, a espécie volta a ser vista como uma aliada na recuperação de ambientes naturais.
Uma paisagem redesenhada pelos castores
Ao caminhar em direção ao cercado, o solo da fazenda fica mais úmido. Folhas de grama, crescem ao lado de desovas de sapo, enquanto o pasto dá lugar gradualmente a um brejo.
Galhos de salgueiro roídos pela metade, espalhados pelo chão, indicam a presença dos animais.
Mais adiante, a água escorre pela sequência de barragens construídas pelos roedores, enquanto poças cristalinas aparecem entre árvores cobertas de líquen.
No ponto mais alto do cercado, uma grande lagoa abriga duas tocas de castor. O casal mantém as duas moradias, o que levou o produtor a brincar sobre como funcionaria o imposto predial dos bichos.
Do pasto encharcado à área de vida selvagem
O espaço, antes um pasto molhado, se converteu em uma área de vida selvagem organizada em torno da lagoa.
Hoje, a lagoa ocupa uma área bem maior do que antes da chegada dos roedores. O gado, porém, ainda volta a pastar ali de vez em quando, especialmente nos períodos mais secos.
Segundo o produtor, não existe disputa entre a criação de gado e a presença dos castores. O ambiente reúne áreas alagadas de profundidades diferentes e riachos que correm em velocidades distintas pelo terreno.
Trechos rasos cobertos de cascalho funcionam como berçário natural para peixes, enquanto a vegetação densa promete abrigar muitos invertebrados na primavera.
Aves como a narceja já se acomodaram por ali, e saem voando dos arbustos quando alguém passa perto. O sonho de soltar os castores no rio O fazendeiro quer libertar os castores do cercado.
Para ele, se fossem soltos, a paisagem poderia se estender por toda a bacia até o mar, e tanto as companhias de água quanto a Agência do Ambiente deveriam se interessar pelo projeto.
A razão, segundo o produtor, é simples: os castores funcionam como uma estação de tratamento de água gratuita.
Rios britânicos recebem grande carga de nitratos e outros poluentes vindos de dejetos humanos e animais, o que compromete a qualidade da água rio abaixo.
Um estudo da Universidade de Cambridge analisou a propriedade e constatou que o rio alimentado pelo cercado dos castores tinha níveis de nitrato 80% menores do que os registrados mais a montante.
O resultado reforça o papel dos animais na filtragem natural da água.
Renaturalização como parte da rotina
Nos últimos 20 anos à frente do negócio, Jones trocou o sistema orgânico misto por outro baseado apenas em pastagem e aprofundou o processo de renaturalização.
Atualmente, cerca de 60% da propriedade utiliza um modelo agroflorestal, no qual o gado compartilha o espaço com árvores.
A experiência mostra como a produção rural e a recuperação ambiental podem coexistir.













