As primeiras precipitações previstas para a segunda semana de setembro em Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e Minas Gerais podem enganar o produtor rural. Embora tragam um alívio momentâneo e pareçam sinalizar a normalização do período chuvoso, essas chuvas não terão continuidade.
Na segunda metade de setembro, o tempo seco retorna com força em regiões como Sorriso (MT). A consistência plena das precipitações só deve ocorrer na segunda quinzena de outubro, criando um intervalo crítico de aproximadamente 30 dias de incerteza para o plantio.
Chuvas irregulares e calor extremo
O cenário climático é marcado por fortes contrastes regionais. O centro-norte do Brasil enfrenta chuvas abaixo da média entre setembro e novembro, com risco elevado de déficit hídrico e incêndios florestais na Amazônia Legal e no Pantanal.
Já o Sul, especialmente Rio Grande do Sul, partes de São Paulo e Mato Grosso do Sul, deve registrar precipitações acima da média histórica. O calor extremo, com temperaturas que podem chegar a 38 °C, agrava ainda mais a situação no Brasil Central.
As temperaturas podem alcançar 37 °C a 38 °C em setembro, com picos próximos ou superiores a 40 °C entre outubro e novembro. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) alerta para a possibilidade de pelo menos seis ondas de calor entre setembro e dezembro de 2026.
Paralelamente, massas de ar frio podem provocar quedas bruscas de temperatura, especialmente no mês de abertura da safra, adicionando um elemento extra de instabilidade para os agricultores.
Fortalecimento do El Niño e seus impactos economicos
Esse quadro climático desafiador é impulsionado pelo fortalecimento do El Niño no Oceano Pacífico, conforme detalhado no Boletim nº 3 do Painel El Niño 2026-2027. O documento, divulgado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) em parceria com diversos outros órgãos de monitoramento, revela um cenário de alta intensidade para os próximos meses.
Os impactos econômicos já começam a ser projetados e acendem um sinal de alerta para o agronegócio. Estudo do Itaú Unibanco estima uma retração de aproximadamente 1,5% no PIB agropecuário em 2027, impulsionada por quebras nas safras.
A mesma análise trabalha com uma queda de 17% na safra de milho, uma vez que o atraso no plantio da soja reduz a janela ideal para o milho safrinha. A AgResource Brasil já aplica um desconto de 4,9 milhões de toneladas na projeção da safra nacional de soja 2026/27 associado aos efeitos do El Niño.
Recomendações para a tomada de decisão
Diante desse cenário, a orientação oficial é cautela. O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) recebeu da Embrapa um pacote de 163 medidas para gestão de riscos climáticos, elaborado por cerca de 50 especialistas da Embrapa e do Inmet, abrangendo tanto os impactos imediatos da safra 2026/27 quanto ações permanentes de prevenção e adaptação.
A decisão sobre o plantio deve considerar a tendência de longo prazo até o início de 2027 e não apenas as primeiras chuvas.













