A Inglaterra enfrenta uma combinação de calor extremo e seca prolongada que começa a pressionar diferentes setores da produção agropecuária.
Com a quinta onda de calor consecutiva e a estiagem atingindo quase três quartos do território inglês, produtores de cereais, pecuaristas, fruticultores e horticultores enfrentam impactos que podem se prolongar pelos próximos meses.
A situação é especialmente preocupante para a safra de cereais de 2026. As primeiras estimativas apontam que as colheitas de trigo, cevada de primavera e aveia estão significativamente abaixo das médias históricas.
Dados da Agriculture and Horticulture Development Board (AHDB), analisados pela Climate Intelligence Unit (ECIU), indicam que a produção de cereais e oleaginosas pode alcançar o menor nível desde o início dos registros detalhados, em 1984.
Pastagens secas ameaçam rebanhos no inverno
Na fazenda de Clare Wise, em Durham, a seca contínua reduziu o crescimento do capim a cerca de metade do normal para esta época do ano. O cenário retrata a crise vivida por criadores de gado em toda a região.
Wise, que também atua como diretora do conselho de gado da National Farmers’ Union.
Disse ao The Guardian que este deveria ser o período de pico para colher forragem de inverno, mas o crescimento do capim parou completamente.
Alguns criadores foram forçados a recorrer às reservas de alimento já estocadas para o inverno; outros precisarão complementar o pouco que têm com ração comprada.
A produção de leite caiu cerca de 1%, até agora, segundo a AHDB, porque as vacas têm menos para comer e sofrem com o calor.
A escassez de tosquiadores também complicou a situação, dificultando o conforto dos rebanhos de ovelhas.
Para o futuro, especialistas sugerem que criadores cultivem árvores e cercas vivas mais altas para oferecer sombra aos animais; alguns com rebanhos maiores podem considerar ar-condicionado em seus galpões e salas de ordenha.
Frutas ganham sabor, mas preocupação cresce
O mês de julho mais ensolarado já registrado no Reino Unido trouxe um lado positivo para as frutas vermelhas.
Morangos e framboesas se desenvolveram particularmente bem, enquanto frutas de caroço, como pêssegos, ameixas e abrunhos, amadureceram rapidamente.
Cerejas e mirtilos ficaram baratos e abundantes porque os frutos são menores, mas mais doces, com sabores concentrados pelo calor intenso.
Maçãs pequenas e mais doces também beneficiam produtores de sidra. Tom Cantillon, analista da ECIU, observou ao The Guardian que supermercados tendem a escolher maçãs pelo tamanho.
Então se menos delas atenderem ao padrão, compradores podem se decepcionar, mas isso poderia ser um ano excepcional para a fabricação de sidra.
No entanto, o cenário é misto para outros produtos. Enquanto a maioria das frutas no Reino Unido é cultivada em estruturas cobertas, a falta de chuva nos campos deixou os horticultores preocupados com o abastecimento de água.
Cerca de metade da produção de batata do país depende de irrigação, frequentemente com água subterrânea extraída de poços ou rios.
Muitos agricultores gostariam de construir reservatórios no próprio local para armazenar mais água, mas isso exige aprovação complexa de planejamento.
Preços e disponibilidade em debate
Martin Emmett, presidente do conselho de horticultura e batatas da União Nacional dos Agricultores, descreve o quadro atual como “genuinamente misto”.
Enquanto alguns produtores colhem ganhos com o clima extremo, outros enfrentam incertezas sobre viabilidade econômica e segurança hídrica.
Os mesmos fatores que beneficiaram frutas vermelhas e sidra, o calor e a seca, transformaram-se em crise para quem depende de pastagens e água para irrigação.













