A dívida que começou com empréstimos milionários terminou com a perda da própria terra. Em Peixe, no sul do Tocantins, o Santander retomou a Fazenda Santo Antônio, propriedade de 434,8 hectares avaliada em cerca de R$ 9,6 milhões. O imóvel foi levado a leilão em agosto de 2026, com lance inicial de R$ 9,77 milhões no primeiro leilão e R$ 9,38 milhões no segundo.
Entre 2021 e 2022, o pecuarista havia contratado aproximadamente R$ 9,5 milhões em empréstimos com o banco. Para garantir as operações, hipotecou a fazenda nove vezes. Em 2025, as garantias foram substituídas pela alienação fiduciária.
Como a dívida não foi quitada, o Santander consolidou a propriedade em seu nome por procedimento extrajudicial. O produtor perdeu a terra sem que fosse necessário esperar uma decisão judicial.
Quando a dívida vira terra
A Fazenda Santo Antônio não é um caso isolado. Com o avanço dos atrasos no crédito rural, instituições financeiras passaram a recorrer mais à alienação fiduciária, mecanismo que facilita a execução de imóveis usados como garantia.
O produtor continua utilizando a propriedade enquanto paga a dívida, mas o imóvel fica vinculado ao credor. Em caso de inadimplência, cumpridas as condições legais, a propriedade pode ser consolidada em nome do banco e levada à venda.
Diferentemente da hipoteca, a alienação fiduciária permite que a execução ocorra pela via extrajudicial, diretamente no registro de imóveis.
Bancos começam a acumular fazendas
A mudança já aparece na estratégia das instituições financeiras. O Bradesco passou a utilizar a alienação fiduciária em praticamente 100% dos novos empréstimos destinados a grandes produtores, segundo levantamento publicado em setembro de 2026.
O Banco do Brasil também iniciou a retomada definitiva de mais de 130 imóveis rurais vinculados a operações com esse tipo de garantia.
O Santander adotou outra estratégia para administrar parte das propriedades retomadas: fundos de investimento ligados ao agronegócio. Um deles, do qual o banco é o único cotista, reúne imóveis avaliados em aproximadamente R$ 97 milhões. A Fazenda Santo Antônio deve integrar esse conjunto.
Uma possibilidade é que o antigo proprietário continue produzindo por meio de um contrato de arrendamento. Assim, a atividade permanece, mas a terra muda de dono.
A inadimplência explodiu
A crise do crédito rural aparece em diferentes frentes:
- Inadimplência: a taxa passou de 0,54% para 5,63% em cinco anos. O saldo inadimplente chegou a R$ 48 bilhões em junho de 2026, contra R$ 2 bilhões cinco anos antes, alta de cerca de 2.300%.
- Grandes produtores: cerca de R$ 29 bilhões do saldo estão concentrados entre produtores de alta renda. Nessa faixa, o calote cresceu mais de 7.000% em cinco anos.
- Concentração regional: Goiás, Rio Grande do Sul, Mato Grosso e Minas Gerais reúnem aproximadamente metade do saldo inadimplente do país.
- Recuperação judicial: o agronegócio registrou 474 pedidos entre janeiro e março de 2026, alta de 21,9% sobre o mesmo período de 2025. Em todo o ano passado, foram 1.990 pedidos, recorde da série histórica da Serasa Experian, iniciada em 2021.
- Estados mais afetados: Mato Grosso liderou o primeiro trimestre, com 135 pedidos, seguido por Goiás (73) e Paraná (50).
- Atividades: o cultivo de soja respondeu por 137 pedidos, enquanto a criação de bovinos teve 42.













