Por fora, a manga pode chegar ao consumidor com aparência perfeita, sem manchas ou sinais de deterioração. O problema, porém, pode estar escondido no interior da fruta.
Conhecido como corte negro, o escurecimento da polpa é um distúrbio que pode surgir depois de semanas de armazenamento refrigerado e comprometer a qualidade do produto.
Uma pesquisa realizada pela Embrapa Semiárido identificou que o problema está relacionado à exposição prolongada de mangas ainda verdes a temperaturas baixas durante o transporte em contêineres refrigerados.
A descoberta tem impacto direto sobre as exportações brasileiras. O país ocupa a sexta posição entre os maiores produtores mundiais de manga, e mais de 90% do volume exportado tem origem no Vale do São Francisco.
As frutas destinadas à Europa, aos Estados Unidos e à Ásia podem permanecer durante várias semanas em contêineres refrigerados.
É nesse período que as condições inadequadas de temperatura podem favorecer o aparecimento do defeito.
Por que o defeito prejudica quem vende e quem compra
A polpa escurece principalmente perto da semente, e essa transformação compromete a qualidade.
Consumidores só identificam o problema ao cortar a fruta em casa, quando já pagaram pelo produto, e a rejeição afeta supermercados e empresas de processamento.
Importadores têm limites de tolerância rígidos: quando mais de 10% das frutas avaliadas mostram desordens fisiológicas, a carga inteira pode ser recusada.
Para operações que fatiam e vendem manga fresca pronta para comer, como a Blue Skies, que processa frutos no Brasil e na África para abastecer mercados europeus, o escurecimento representa perdas antes mesmo da industrialização.
Como a temperatura baixa causa o dano invisível
O problema não surge no campo nem na hora da colheita, surge durante o armazenamento prolongado em frio.
Mangas colhidas em estágios menos avançados de maturação são especialmente suscetíveis, porque frutos menos maduros têm mais dificuldade para suportar temperaturas muito baixas.
Pesquisadores da Embrapa demonstraram que o escurecimento é uma injúria causada pelo frio, e não uma deterioração comum.
Essa descoberta abriu caminho para estratégias práticas que reduzem a ocorrência do defeito sem comprometer a oferta de frutas para exportação.
Quatro caminhos para proteger a manga durante o trajeto
O primeiro passo é escolher o momento certo para colher: frutas em estágio de maturação mais avançado resistem melhor ao frio.
O segundo é manter temperaturas adequadas desde a colheita até o destino final, o que reduz o surgimento do defeito.
A terceira estratégia usa atmosfera controlada dentro dos contêineres para estabilizar as reações internas da fruta durante semanas de transporte.
A quarta envolve aplicar 1-metilciclopropeno (1-MCP), um regulador que bloqueia o etileno, hormônio que acelera o amadurecimento e torna a fruta mais vulnerável ao dano por frio.
Tratamento reduz incidência do corte negro
Testes mostraram que o 1-MCP reduziu a incidência de escurecimento de quase 100% para menos de 60% em cultivares como Tommy Atkins e Keitt após 45 dias de armazenamento a 9°C.
A menor dose testada teve praticamente a mesma eficiência das concentrações mais elevadas, com menor custo de aplicação.
O pesquisador Sérgio Tonetto, responsável pelo estudo na Embrapa Semiárido, disse que o setor desconfiava da relação entre frio e escurecimento, mas faltavam evidências científicas sólidas.
A pesquisa transformou a suspeita em conhecimento aplicável e permitiu que produtores e exportadores ajustassem suas operações com base nos resultados do estudo.
Produtores ajustam operações no Vale do São Francisco
Produtores como a Blue Skies e a Agrodan já implementam essas estratégias. A Blue Skies passou a armazenar mangas acima de 10°C e a colher no segundo estágio de maturação.
A Agrodan produz e exporta mais de 32 milhões de quilos de manga por ano no Vale do São Francisco.
A empresa combina ajustes no ponto de colheita, climatização, redução do intervalo entre colheita e embarque, aplicação de 1-MCP e adequação de temperaturas.
O 1-MCP acrescenta cerca de 12 horas ao processo entre embalagem e expedição, criando desafios logísticos, mas os benefícios em qualidade justificam o ajuste.
Com essas medidas, a manga chega aos consumidores internacionais mantendo a aparência e a qualidade interna e protegendo a reputação da fruta brasileira nos mercados mais exigentes do mundo.













