Voluntários estão retomando uma antiga técnica agrícola para ajudar a proteger uma das espécies de abelhas mais ameaçadas do Reino Unido.
Em prados de Somerset, na Inglaterra, o trabalho de corte da vegetação passou a ser feito com foices, em vez de colheitadeiras e outras máquinas modernas.
A iniciativa é conduzida pelo English Heritage em parceria com o Bumblebee Conservation Trust e integra um projeto de três anos voltado à preservação de habitats considerados importantes para os polinizadores.
A mudança busca resolver um problema provocado justamente pela mecanização. Máquinas utilizadas para cortar os prados operam em alta velocidade e podem atingir abelhas que constroem seus ninhos no solo antes que os insetos tenham tempo de escapar.
Por que as máquinas prejudicam as abelhas
A abelha-carpinteira-estriada (Bombus sylvarum), uma das espécies mais raras e vulneráveis do Reino Unido, habita apenas cinco regiões do país.
Somerset é um desses locais críticos onde ela persiste. Quando colheitadeiras modernas passam por prados, sua velocidade não deixa tempo para o inseto escapar, muitos indivíduos são eliminados antes de conseguir se afastar.
A população dessa abelha diminuiu à medida que os prados ricos em flores desapareceram da Inglaterra. Cortar o capim permite que novas plantas brotem e forneçam pólen, essencial para a sobrevivência do inseto.
Mas a forma de corte faz toda a diferença: a foice dá à abelha uma chance de fuga que a máquina não oferece.
A foice como ferramenta de restauração ambiental
A foice acompanha a agricultura europeia há séculos e se tornou uma ferramenta comum por volta do século 8.
Com uma lâmina fina e afiada presa a um cabo de madeira curvo, o instrumento exige técnica, força física e coordenação para ser utilizado de maneira eficiente.
Registros do Museu da Vida Rural Inglesa indicam que um trabalhador experiente conseguia cortar até dois hectares de cereal em um dia.
No projeto em Somerset, os participantes recebem treinamento da Autoridade do Parque Nacional de Exmoor para aprender a utilizar a ferramenta e recuperar uma habilidade que deixou de fazer parte da rotina agrícola com a expansão da mecanização.
O movimento repetitivo aproxima quem trabalha do prado e da paisagem, algo que as máquinas não proporcionam.
Conhecimento antigo para desafios atuais
A iniciativa começa na Abadia de Muchelney e em breve se expande para outros sítios administrados pelo English Heritage em Somerset.
O projeto une a preservação de espécies ameaçadas ao resgate de competências tradicionais que quase desapareceram. O gerente do sítio disse à BBC Radio Somerset que a atividade permite aprender sobre o patrimônio da ferramenta.
Para o coordenador de voluntários, a foice mostra como habilidades tradicionais ainda podem ajudar a enfrentar desafios modernos.
Cada voluntário entende que está ajudando a criar habitats diversos e ricos em plantas, exatamente o que polinizadores como essa abelha necessitam para prosperar.
O trabalho manual lento substitui a eficiência ruidosa por um cuidado que só o tempo e a atenção humana conseguem proporcionar.













