A fazendeira estadunidense Christen Wall concilia dois estilos de vida que divergem. Em junho, a fazendeira de jacarés acorda de madrugada para coletar ovos em ninhos escondidos no pântano do sul da Louisiana. Três meses depois, ela viaja para a Semana de Moda de Milão para negociar couro com compradores.
A rotina dupla é fruto de um negócio familiar que está na terceira geração. Wall é coproprietária da fazenda com os pais e o irmão e acompanha todas as etapas, da coleta dos ovos à venda do couro usado por marcas de luxo.
Em entrevista à PEOPLE, ela descreveu a rotina como imprevisível e dinâmica, porque cada estação exige uma função diferente no negócio. Em abril, por exemplo, dedica-se às tarefas administrativas, responde a e-mails e cuida da papelada da fazenda.
Da escola agrícola ao comando da fazenda
Criada entre milhares de répteis, ela chegou a cogitar deixar a vida no interior e se mudar para Nova York. Nas aulas de agrociência no ensino médio e na Organização Nacional FFA, uma ONG estudantil voltada para o ensino agrícola, descobriu seu interesse pelo negócio que a família mantinha havia décadas.
No último ano escolar, ela presidiu a FFA da Louisiana. A experiência a fez perceber o quanto o negócio da família era incomum. Depois, formou-se em administração agrícola pela Louisiana State University e se tornou a primeira pessoa entre os familiares mais próximos a concluir a faculdade.
O ataque durante um furacão em formação
O trabalho com répteis selvagens tem riscos conhecidos, e ela enfrentou um deles em 11 de julho de 2019. Naquele dia, foi ao pântano com o pai para recolher ovos enquanto o furacão Barry se formava no Golfo.
Segundo ela, os ovos de jacaré sobrevivem submersos apenas por um tempo limitado, e o avanço das águas da tempestade ameaçava ninhos inteiros. Pai e filha tentavam resgatar o maior número possível de ovos antes que a chuva piorasse.
A manhã passou tranquila: os dois visitaram cerca de 60 ninhos sem cruzar com nenhum jacaré adulto. Então encontraram uma fêmea protegendo os próprios ovos, e esperaram o animal se afastar antes de se aproximar do ninho.
Eles acompanharam a trilha usada pela fêmea e a viram mergulhar em um buraco próximo. Esperavam que ela reaparecesse no mesmo ponto, mas o animal nadou por baixo d’água, passou atrás do barco e emergiu ao lado da embarcação sem que pai ou filha percebessem.
Segundo seu relato, ela caiu dentro do barco e viu a própria perna coberta de sangue. A mordida foi única: o animal soltou a perna logo depois. No hospital, ela atualizou a vacina antitetânica e tratou o ferimento. Ela também relatou que, nos quarenta anos de atividade do pai na profissão, um episódio assim nunca havia acontecido antes.
Novas regras de segurança na fazenda
O susto fez com que a família adotasse novos hábitos de segurança. Hoje mantém as pernas sempre dentro do barco durante a coleta de ovos e garante que toda embarcação da fazenda tenha kit de primeiros socorros.













