Uma feira rural no estado Carolina do Norte, dos Estados Unidos, uniu múltiplas gerações de agricultores em uma só competição. A jovem Sophie Sunday, de apenas 12 anos, se tornou a competidora mais jovem no concurso anual de “stringing”, que consiste em amarrar folhas de fumo em varas de madeira
O nome da prática varia conforme a região e faz parte de um legado agrícola que quase desapareceu. Em Raleigh, capital onde fica a Feira, ela é chamada de “stringing contest”. Mais a leste do estado, o mesmo trabalho recebe o nome de “looping tobacco”.
Os dois termos descrevem uma tradição que ligava gerações de famílias à terra e ao ritmo das colheitas.
Um patrimônio quase esquecido
Há décadas, a colheita do fumo exigia trabalho braçal. As folhas verdes eram amarradas em varas longas antes de serem levadas aos celeiros. O fogo precisava ser alimentado dia e noite, até as folhas atingirem a cor dourada-acastanhada.
Ruth Coats, de 97 anos, é a concorrente mais velha do evento. Ela viveu essa realidade ao lado da família, perto da fronteira com a Virgínia.
O fumo foi um dia a maior fonte de renda das propriedades rurais do estado. Dados de produção mostram que os agricultores colhiam mais de 248 milhões de quilos de tabaco curado em estufa por ano. O trabalho era difícil, mas deixou marcas profundas em quem o praticou.
Ruth Coats disse à AP que o trabalho era bom e árduo, marcado por esforço e convivência familiar nos campos, e que tornava as pessoas muito mais fortes.
A mecanização transformou tudo
As colheitas de tabaco da Carolina do Norte são feitas quase integralmente por máquinas atualmente. O produto é embalado em silos cilíndricos de metal aquecidos a gás natural, que lembram mais contêineres de transporte do que os antigos celeiros de madeira.
A industrialização eliminou a necessidade das varas de madeira e do trabalho manual que prendia gerações. Apesar da mudança, o concurso de amarração de fumo continua na Feira.
Equipes como “The Tie Masters” competem pelo menor tempo para amarrar os maços de folhas. Os concorrentes mais velozes conseguem prender um fardo em menos de 1 minuto e 50 segundos.
Sophie e sua família, que inclui a mãe, Annie, e a tia-avó, Darlene Rappa, representam essa continuidade e homenageiam um modo de vida quase esquecido.
O fio que conecta passado e presente
A Carolina do Norte continua sendo o maior produtor de tabaco do país, mas a folha passou a ser a terceira cultura de maior valor econômico do estado, atrás do milho e da soja. Nas últimas décadas, o tabaco perdeu parte de seu significado econômico e cultural.
Quando os pais de Sophie eram crianças, a tradição do stringing já parecia arcaica. A presença de Sophie, de 12 anos, ao lado de Ruth Coats, de 97, resume o que o concurso tenta preservar: a ligação entre quem viveu essa rotina e quem a conhece como herança familiar. Entre as duas, a prática que amarrava o fumo também liga a Carolina do Norte ao seu passado.
O que mudou economicamente para os agricultores
A transformação da produção de tabaco afetou diretamente a viabilidade das pequenas propriedades. Quando o trabalho era manual e exigia menos terra, uma família conseguia gerar renda suficiente com apenas 6 a 10 acres dedicados ao tabaco. Assim, proprietários menores podiam manter suas fazendas de forma independente.
Hoje, a mecanização impôs uma mudança de escala, e a maioria dos agricultores que trabalham com tabaco precisa firmar contratos com empresas para cultivar entre 400 e 600 acres de uma vez. Com isso, apenas operações maiores conseguem ser economicamente viáveis, enquanto os pequenos produtores que antes sustentavam suas famílias com essa cultura ficam de fora.













