Situado entre a República Democrática do Congo e Ruanda, o Lago Kivu reúne condições geológicas que o tornam uma ameaça latente para as populações ao redor.
Em suas camadas mais profundas, acumulam-se cerca de 300 quilômetros cúbicos de dióxido de carbono, além de 58 quilômetros cúbicos de metano dissolvidos na água.
Caso esse material escape para a superfície, o resultado pode ser um desastre de grandes proporções para pessoas e para o meio ambiente da região.
O risco também é monitorado por cientistas do Instituto Suíço de Pesquisa Hídrica e Ambiental.
Situação parecida já foi registrada em Camarões, no noroeste do país, onde os lagos Nyos e Monoun tiveram erupções nas últimas cinco décadas, liberando nuvens de gás que mataram pessoas e animais na região. Em 1986, o episódio no Nyos deixou cerca de 2 mil mortos.
Lago Kivu e sua estrutura vulnerável retendo gases perigosos
O Lago Kivu apresenta uma estrutura vertical complexa que o torna particularmente vulnerável a erupções.
Enquanto a parte superior se mistura regularmente, as camadas profundas permanecem estratificadas e aprisionam gases no fundo. Sergei Katsev, limnologista da Universidade de Minnesota Duluth, explicou essa dinâmica.
Segundo Philip Morkel, o lago está acima de 60% de saturação de gases. O engenheiro fundador da Hydragas Energy alertou que, quando atingir 100% de saturação, o lago entrará em erupção espontânea.
Qualquer perturbação, um terremoto ou intrusão de lava, também pode desencadear a explosão catastrófica.
O risco aumenta pela presença de dois vulcões ativos localizados a 24 quilômetros de distância, além da zona de fenda vulcânica que fica diretamente abaixo do Lago.
O impacto devastador de uma erupção
Segundo Morkel, uma explosão do Kivu liberaria de 2 a 6 gigatoneladas de carbono na atmosfera em um único dia.
As emissões globais atuais de dióxido de carbono somam aproximadamente 38 gigatoneladas por ano em todo o planeta. Um único evento no lago equivaleria a uma fração das emissões anuais mundiais.
O gás liberado formaria uma nuvem tóxica sobre o lago durante dias ou semanas, venenosa para qualquer ser vivo. Uma exposição de apenas um minuto naquela nuvem seria letal para seres humanos, segundo Morkel.
Milhões de pessoas vivem nas proximidades do Lago Kivu e correm risco direto em caso de erupção.
Ruanda aposta em extração de metano para gerar energia
Como forma de reduzir o perigo, as autoridades ruandesas deram à KivuWatt, companhia privada, permissão para retirar o metano do lago e transformá-lo em energia destinada à rede elétrica nacional. O processo retira água rica em gás de uma profundidade específica.
O processo separa o CO₂ e o metano e devolve a água desgaseificada ao lago. A estratégia cria um dilema entre a segurança imediata e a exploração comercial: se a água for devolvida às profundezas, dilui a zona de recursos para os anos seguintes.
Se for despejada acima, como faz a KivuWatt atualmente, a água gera uma pluma que afunda pelas camadas de densidade.
Essa pluma provoca mistura vertical e pode aumentar o risco de erupção, o oposto do objetivo de prevenir o desastre.
Atualmente, a KivuWatt adiciona 26 MW de energia à rede de Ruanda, com planos para aumentar para 100 MW.
Essa expansão, porém, pode elevar o risco de erupção. Em declaração à National Geographic, Morkel advertiu que projetos em escala maior poderiam atingir o ponto de danos irreversíveis.
Martin Schmid, pesquisador do Instituto Suíço de Pesquisa Hídrica e Ambiental, afirmou que considera o método seguro, embora reconheça que as previsões nunca são completamente corretas.













