Sistemas de agricultura tradicional que mantêm a biodiversidade estão sob pressão à medida que a padronização agrícola global avança.
Um estudo internacional examinou como esses sítios de herança agrícola funcionam como modelos para equilibrar produção e conservação em um mundo que simplifica cada vez mais o campo.
Publicado em 2026 na Ecology and Society, o estudo analisou 31 respostas de membros de comunidades vinculadas a Globally Important Agricultural Heritage Sites (GIAHS, na sigla em inglês), designação concedida pela FAO para reconhecer sítios onde práticas tradicionais mantiveram alta agrobiodiversidade e segurança alimentar.
Até 2025, 102 sítios em 29 países haviam sido designados globalmente.
O que mantém viva a agricultura tradicional
Os sítios de herança agrícola compartilham características como paisagens em mosaico, uso comunitário de recursos e tradições culturais ligadas a eventos sazonais de plantio e colheita.
Essas áreas integram conservação e produção sem sacrificar nenhuma das duas, um desafio que abordagens de paisagem integrada enfrentam globalmente.
A pesquisa utilizou um Q-survey com 34 afirmações e três perguntas abertas para examinar atributos-chave dos sistemas de herança agrícola, os impactos da designação GIAHS e os obstáculos enfrentados.
Os respondentes incluíram especialistas e pesquisadores vinculados a esses sítios.
Quatro modelos diferentes de herança agrícola
O estudo identificou, entre as respostas, quatro categorias de GIAHS. A primeira se concentra na certificação de produtos. A segunda enfatiza a produção de alimentos básicos com canais de comercialização curtos.
A terceira categoria prioriza a exportação de produtos. A quarta se concentra em tradições e valores culturais, além da redução dos impactos das mudanças climáticas.
Essa categoria reconhece que preservar o conhecimento tradicional também é uma estratégia de adaptação ambiental.
Benefícios da designação e desafios reais
Membros de comunidades agrícolas relataram que a designação GIAHS beneficiou a consciência pública e estimulou políticas de preservação.
O reconhecimento internacional trouxe legitimidade a práticas que governos e mercados frequentemente ignoram em favor de modelos industrializados.
Ainda assim, os desafios persistem em diversas áreas e continuam a afetar a produtividade e o desenvolvimento esperado.
O abandono de terras, o envelhecimento da população rural e as mudanças climáticas são obstáculos comuns aos sistemas de herança agrícola.
Quando os jovens deixam o campo porque ganham mais na cidade, o conhecimento acumulado em séculos corre risco de desaparecer em uma geração.
Pontes entre produção e conservação
Os sítios de herança agrícola compartilham a conservação dinâmica, os usos multifuncionais da terra e o engajamento de múltiplos atores, características das abordagens de paisagem integrada.
Mas têm algo único: o compromisso com a preservação da herança cultural e do conhecimento tradicional.
Essa característica é a chave para produzir alimento e renda sem destruir ecossistemas e comunidades.
A padronização agrícola global, porém, avança e elimina variedades locais e práticas adaptadas.
Esses sítios de herança mostram que é possível fazer as duas coisas: alimentar as pessoas e manter vivos os conhecimentos, as sementes e as paisagens transmitidos entre gerações.













