Em uma das regiões mais remotas da Nova Zelândia, um pequeno grupo de bovinos passou quase um século vivendo sem manejo humano, enfrentando frio, ventos fortes, chuva e escassez de alimento. Introduzidos na Ilha Enderby entre 1894 e 1896, os animais sobreviveram, se reproduziram e deram origem a uma população que se tornou uma das mais raras linhagens bovinas do mundo.
A Ilha Enderby tem cerca de 710 hectares e fica no arquipélago das Ilhas Auckland, aproximadamente 465 quilômetros ao sul da Ilha Sul da Nova Zelândia. O ambiente é subantártico e abriga espécies nativas, incluindo aves endêmicas e importantes áreas de reprodução do leão-marinho-da-Nova-Zelândia.
Os bovinos foram introduzidos para uma tentativa de exploração agropecuária que não prosperou. O rebanho nunca chegou a números muito elevados, mas atingiu cerca de 100 animais antes de se estabilizar entre 35 e 60 durante boa parte da segunda metade do século XX. Sem manejo, os animais passaram a consumir vegetação nativa, arbustos e até algas marinhas.
Bovinos isolados em ambiente hostil
O isolamento prolongado produziu uma população pequena, robusta e distintiva que chamou a atenção de conservacionistas quando planos de erradicação foram anunciados.
No fim do século XX, porém, o rebanho se tornou um dilema para a conservação. A Ilha Enderby havia se tornado um refúgio importante para plantas nativas raras e também abrigava aves marinhas e o leão-marinho da Nova Zelândia, espécie em risco de extinção.
Por isso, o plano de manejo das Ilhas Auckland determinou a retirada dos bovinos. Em 1991, uma operação de três semanas matou pelo menos 47 animais, enquanto pesquisadores tentavam preservar seu material genético antes da eliminação completa do rebanho.
A última vaca e o resgate genético
Eles coletaram e preservaram material genético de vários touros durante o programa de eliminação, mas não conseguiram recuperar embriões das vacas.
Durante uma expedição em 1992, conservacionistas encontraram pegadas frescas, confirmando que alguns animais haviam escapado. Dois animais sobreviveram: uma vaca adulta chamada Lady e sua cria. As duas foram resgatadas em fevereiro de 1993, mas a bezerra morreu pouco depois.
Isolamento genético e reprodução assistida
Os primeiros esforços de reprodução convencional e transferência de embriões não deram resultado. Pesquisadores então recorreram à fertilização in vitro. Depois de dezenas de tentativas, um único touro puro de Enderby nasceu em 1998. Ele recebeu o nome de Derby.
Ainda assim, a população era pequena demais para garantir a continuidade da linhagem. A alternativa foi a clonagem de Lady, realizada pelo pesquisador David Wells. O procedimento deu origem a Elsie, a primeira bezerra clonada de Lady, nascida em julho de 1998, seguida por outros clones.
Posteriormente, os clones foram reproduzidos com Derby. Em 2002, nasceram novas bezerras, e o programa continuou utilizando transferência de embriões e reprodução natural para ampliar a população.
Hoje, os bovinos de Enderby continuam sendo considerados uma das raças mais raras do mundo. A população é mantida na Nova Zelândia por criadores e organizações dedicadas à conservação de raças raras, que buscam aumentar o número de animais sem perder a identidade genética desenvolvida durante décadas de isolamento.













