Um fenômeno climático extremo avança pelo Pacífico, mas o planeta tem uma defesa que não existia décadas atrás: reservas de grãos próximas de níveis recordes, sementes tolerantes à seca e tecnologia agrícola mais sofisticada.
A entrada de novos gigantes exportadores, como Brasil e Rússia, recria o mapa da segurança alimentar global.
O El Niño já é considerado forte e deve ganhar intensidade no quarto trimestre de 2026 e no início de 2027.
Episódios anteriores, como os de 1997-1998 e 2015-2016, reduziram a produção de culturas importantes em regiões como Ásia, Brasil e Austrália, contribuindo para escassez de alimentos, inflação e perdas econômicas.
Tecnologia agrícola como defesa dos alimentos contra clima extremo
Sementes que resistem à seca, fertilizantes aplicados com precisão e sistemas de irrigação inteligente transformaram a forma como o mundo cultiva arroz, trigo, milho e soja.
Essa mudança técnica elevou a produtividade das lavouras e reduz o impacto que a falta de chuva costumava causar.
“Mesmo durante condições de seca, melhor manejo da irrigação e ciência das culturas significam que ainda podemos produzir rendimentos comercializáveis”, afirma Andrew Whitelaw, da consultoria australiana Episode 3.
O especialista reconhece que os riscos para a alimentação e os preços globais continuam reais, mas que tendem a ser menos severos do que nas décadas anteriores.
Ásia já sente o impacto, mas reservas contêm o estrago
Regiões da Índia, Sudeste Asiático e Austrália enfrentam agora umidade abaixo do normal, enquanto a escassez de fertilizantes e combustível causada por conflitos internacionais intensifica a pressão.
Monções fracas na Índia e temores de seca nas plantações australianas de trigo sinalizam que o fenômeno já está em ação.
Indonésia e Tailândia também registram sinais de clima mais seco. Chris Hyde, meteorologista da empresa americana SkyFi, prevê que o El Niño deve se intensificar no quarto trimestre deste ano e estender-se pelo início de 2027.
Quando temperaturas anormais dominam o Pacífico central e oriental, grande parte da Ásia sofre com secas enquanto chuvas aumentam nas Américas.
Estoques recordes funcionam como colchão de segurança
O que diferencia este episódio dos anteriores não é apenas a tecnologia, mas também o volume dos estoques.
A Índia mantém reservas de arroz que cobrem mais de um ano de exportações globais, segundo dados da Reuters.
O plantio na Índia mantém ritmo próximo ao esperado após superar atraso inicial, porém as chuvas de agosto e setembro serão cruciais para a maturação das lavouras.
A China detém quase metade das reservas mundiais de trigo.
O óleo de palma também se aproxima de recordes e responde por 60% das exportações de óleos comestíveis no mercado internacional.
Esse conjunto de reservas reduz perdas que o clima severo dos anos 1997-1998 e 2015-2016 causou à produção mundial.
Brasil e Rússia reescrevem a oferta global
Há três décadas, a produção agrícola dependia de poucas regiões. Hoje, o Brasil consolidou-se como maior fornecedor de soja do mundo, com exportações que cresceram mais de 13 vezes desde 1997.
A Rússia também expandiu seu peso, com vendas de trigo pulando de 1 milhão para 48 milhões de toneladas anuais no mesmo período.
Segundo especialistas da FAO, essa diversificação pode reduzir riscos concentrados: se uma região sofre seca ou conflito, outros fornecedores têm potencial para compensar parcialmente a queda na oferta.
No próprio país, o El Niño deve aumentar as chuvas no Sul e causar estiagem rigorosa no Norte e Nordeste.
Esse padrão permite que diferentes regiões contribuam para a oferta global de formas distintas.
Mesmo com essas proteções, o economista-chefe da FAO, Maximo Torero, alerta que o sistema alimentar continua exposto.
Clima extremo, conflitos armados e custos crescentes de produção podem pressionar suprimentos e valores globais se convergirem ao mesmo tempo.













