Pás de turbina eólica giram sobre campos por duas décadas e, ao fim de sua vida útil, deixam de ser usadas. A maioria funciona entre 20 e 25 anos.
Mas seu descarte apresenta um desafio crescente para a sustentabilidade energética. Enquanto cerca de 85 a 90% de uma turbina consegue retornar aos ciclos comerciais, principalmente aço e concreto da torre e fundação, as lâminas ficam de fora dessa equação.
Feitas de fibra de vidro e fibra de carbono unidas por resina epóxi, essas lâminas são escolhidas por sua resistência às condições de campo.
Por isso, também não se decompõem completamente no solo.
São cortadas em pedaços, enterradas ou incineradas, porque essa combinação é difícil e cara de decompor.
O descarte de pás de turbina eólica e seus impactos
Projeções indicam que o planeta acumulará aproximadamente 43 milhões de toneladas de resíduos de pás até 2050, de acordo com estimativas de 2017.
A distribuição concentra-se em três regiões: China (40%), Europa (25%) e Estados Unidos (16%).
Esse cenário cria um paradoxo para a energia eólica, frequentemente promovida como limpa do início ao fim de seu ciclo.
As lâminas são a exceção nessa narrativa ambiental: o material permanece no solo praticamente inalterado.
O setor eólico europeu se comprometeu a garantir que 100% das pás no fim da vida útil sejam reutilizadas, recicladas ou recuperadas até 2025.
Madeira engenheirada como alternativa viável
A startup alemã Voodin Blade Technology decidiu reformular o problema desde a origem e escolheu um material conhecido: madeira laminada colada, usada em vigas estruturais.
A empresa anunciou, em 2024, a instalação de suas pás de madeira de 19,3 metros em uma turbina existente em Breuna, na Alemanha, perto de Kassel.
A Voodin apresentou o equipamento como o primeiro protótipo dessa configuração no mundo. Cada pá mede aproximadamente 19 metros, o equivalente a um ônibus urbano e meio.
As pás são feitas de finas camadas de folheado de madeira coladas entre si. Segundo o cofundador Jorge Castillo, a empresa realizou “centenas de testes de laboratório nos últimos dois anos” para aperfeiçoar o material.
A empresa afirma que as pás são ainda mais duráveis do que as lâminas de fibra de vidro existentes porque apresentam menor resistência à fadiga.
Nenhuma certificação independente que comprove a durabilidade foi publicada; há apenas resultados fornecidos pela própria fabricante.
Vantagens ambientais e comerciais
Segundo a empresa, seu processo envolve 78% menos dióxido de carbono do que a produção convencional de pás, e as lâminas poderiam ser recicladas em novo material ao final de sua vida útil.
A empresa também afirma que o processo reduz os custos em até 20%. Os valores foram fornecidos pelo fabricante, não por análises independentes, e as margens exatas podem variar.
Um projeto de pesquisa dinamarquês, com participação da fabricante, da produtora de resinas epóxi Olin e da Universidade de Aarhus, desenvolveu um processo para reciclar quimicamente as resinas epóxi das pás convencionais.
A fabricante Voodin afirmou que pás maiores, de 60 a 80 metros, estão em desenvolvimento. Elas seriam adequadas para o mercado terrestre, que representa a grande maioria da capacidade eólica mundial.
Próximos passos regulatórios
Para que projetos comerciais de grande escala usem pás de madeira, será necessária aprovação de órgãos de certificação e operadores de redes elétricas.
Para validar a conformidade estrutural, são necessários testes independentes de fadiga, modelagem de carga e avaliações específicas do local.
A tecnologia segue direção oposta à tendência do setor, que caminha para pás convencionais mais longas e com mais materiais compósitos.
Uma pá feita de madeira cultivada em floresta manejada deixaria menos resíduos no solo ao fim de sua vida útil.













