Uso inadequado de inseticidas ameaçam população de abelhas

Uso inadequado de inseticidas ameaçam população de abelhas

Principal agente polinizador, as abelhas têm importante papel na produção de alimentos, mas uso inadequado de inseticidas e mudanças climáticas ameaçam população

Tradicionalmente reconhecidas apenas como produtoras de mel, as abelhas têm papel fundamental na produção dos alimentos ao atuarem como agentes polinizadores. Segundo dados da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES, na sigla em inglês), organismo associado à Organização das Nações Unidas (ONU),o valor anual de cultivos diretamente afetados por esses insetos é estimado entre 235 bilhões e 577 bilhões de dólares.

“Os polinizadores prestam um serviço ecossistêmico chave por polinizar não apenas as culturas agrícolas como também plantas silvestres. Estima-se que 35% da produção agrícola global, bem como 85% das plantas selvagens dependem, em algum grau, da polinização”, afirma o engenheiro-agrônomo, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Soja, e membro da Associação Brasileira de Estudos de Abelha (A.b.e.l.h.a), Décio Gazzoni.

No fim de setembro, Gazzoni ministrou o simpósio “Interações entre serviços de polinização e práticas agrícolas” no 25º Congresso Internacional de Entomologia, realizado em Orlando, nos Estados Unidos.

Segundo Gazzoni, a discussão científica é importante para estudar os impactos da ação humana no serviço de polinização. Nos Estados Unidos e na Europa, apicultores já notaram a diminuição das colmeias, o que aumenta a importância da preservação desses insetos.

“Não é de admirar o nível muito elevado de preocupação com o declínio da população de abelhas, em escala global e, consequentemente, com a eficácia dos serviços de polinização natural, o que pode representar uma ameaça significativa para o bem-estar da Humanidade”, explicou Gazzoni.

O alerta feito pelo pesquisador da Embrapa é real. No início do mês, o US Fish and Wildlife Service (FWS), órgão equivalente ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) nos Estados Unidos, colocou sete espécies de abelha na lista de animais com risco em extinção.

Contribuição

A preocupação com a possível extinção das abelhas tem fundamento. De acordo com os dados do IPBES, cerca de 75% das culturas alimentares no mundo dependem em algum grau dos serviços de polinização. Segundo o pesquisador Décio Gazzoni, hortaliças e frutas como morango, maracujá, melão e maçã são as principais beneficiadas do papel dos agentes polinizadores.

“Frutas e hortaliças são as mais beneficiadas, porque existem diversas espécies que são totalmente dependentes de polinização, ou seja, se não houver a presença de polinizadores, não há produção. Para outras espécies, até existe produção, porém, com polinizadores em quantidade suficiente, melhora a produtividade da cultura e a qualidade dos frutos”, explicou.

Os serviços de polinização podem ainda se transformar em negócio. De acordo com Gazzoni, em alguns casos há o chamado deficit de polinização, que é quando não há polinizadores em número suficiente para atender toda a demanda de uma propriedade, ou de uma região. Nesse caso, são contratados serviços suplementares, que ajudam a melhorar a produção.

No Brasil, porém, esse tipo de mercado ainda é muito incipiente. Segundo a A.b.e.l.h.a, ainda faltam estudos para medir a importância econômica da polinização no País. Um exemplo dessa dificuldade é que, apesar de ter mais de 3 mil espécies de abelhas no Brasil, apenas a abelha melífera africanizada (AMA) é usada como agente polinizador.

“As abelhas sem ferrão Melipona subnitida e Scaptotrigona sp. têm se mostrado promissoras, tanto em ambientes abertos como protegidos. Embora haja uma escassez de colônias para polinização, técnicas de reprodução estão sendo desenvolvidas para superar este problema”, afirmou o pesquisador da Universidade Federal do Ceará Breno Freitas, em entrevista publicada no site da A.b.e.l.h.a.

Abelhas e outros agentes polonizadores estão ameaçados

Apesar de sua importância, as abelhas e outros agentes polinizadores estão ameaçados, principalmente por causa da ação do homem. A perda de habitat, as mudanças climáticas globais e o uso inadequado de inseticidas estão entre os principais fatores que já provocam grande diminuição de colmeias em todo o mundo.

Os dados da Plataforma Intergovernamental sobre Biodiversidade e Serviços de Ecossistemas (IPBES, na sigla em inglês) são alarmantes. De acordo com eles, 16% dos polinizadores vertebrados estão ameaçados de extinção e mais de 40% das espécies invertebradas, principalmente abelhas e borboletas, enfrentam algum risco de extinção.

Para o engenheiro-agrônomo, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Soja, e membro da Associação Brasileira de Estudos de Abelha (A.b.e.l.h.a), Décio Gazzoni, uma das mudanças mais urgentes para frear a diminuição dos agentes polinizadores é a adoção de práticas mais sustentáveis na produção agrícola.

“A agricultura tem sido particularmente visada, com o objetivo de desenvolver sistemas de produção mais favoráveis aos polinizadores. As recomendações são baseadas na adoção de boas práticas agrícolas, sempre visando uma agricultura sustentável, que aproveita os serviços naturais”, afirmou ele, em entrevista ao site da A.b.e.l.h.a.

A expansão das lavouras pode impactar negativamente as populações de polinizadores. Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) preveem que, nas próximas três décadas, haverá um aumento de 70% na produção agrícola, o que pode reduzir ainda mais os habitats para os polinizadores.

Outro vilão são os inseticidas, usados para proteger as lavouras. Para evitar que o aumento da produção agrícola prejudique o habitat dos animais, Gazzoni recomenda que as regras das Boas Práticas Agrícolas sejam rigorosamente respeitadas.

“Se não forem aplicados seguindo rigorosamente as regras das Boas Práticas Agrícolas, em especial o tipo de inseticida, a dose de aplicação, o momento da aplicação (hora do dia ou período da cultura, evitando o florescimento), se a tecnologia de aplicação não for a ideal, evitando deriva, pode haver prejuízo para os polinizadores”, argumentou.

Por Daniel Gondim em RevistaSafra.com.br