Vídeo mostra cerca de 20 animais às margens de uma rodovia em Alegrete; espécie exótica invasora de cervo-axis avança pelo Sul do Brasil e já chegou até o Pantanal, enquanto moradores alertam para riscos ao Pampa e ao veado-campeiro.
Um novo registro reforça um alerta que vem crescendo no campo brasileiro: o cervo-axis (Axis axis), também chamado de chital, continua avançando pelo território nacional. A espécie, originária da Ásia e considerada exótica invasora, já se estabeleceu em diferentes pontos do Sul do país e preocupa pesquisadores pelo potencial de competição com animais nativos, pressão sobre pastagens, disseminação de patógenos e risco de acidentes em rodovias.
O CompreRural vem acompanhando essa expansão. Em janeiro, o portal mostrou que a aparição de grupos do cervo no Sul já levantava o temor de que o Brasil pudesse enfrentar, guardadas as diferenças entre as espécies, um problema semelhante ao provocado pela proliferação do javali. O chital apresenta comportamento gregário, pode formar grandes bandos e disputar recursos alimentares tanto com a fauna nativa quanto com animais de produção.
A preocupação, na realidade, não é recente. Registros da espécie no Rio Grande do Sul remontam ao início da invasão documentada no país. Um estudo científico publicado em 2011 relatou o primeiro registro brasileiro no Parque Estadual do Espinilho, em Barra do Quaraí, no extremo oeste gaúcho, junto às fronteiras com Uruguai e Argentina. Pesquisas posteriores passaram a acompanhar sua expansão territorial pelo estado.
Os animais encontrados no Sul estão associados à expansão de populações estabelecidas nos países vizinhos. O cervo-axis foi introduzido na Argentina e no Uruguai principalmente para fins cinegéticos e, ao longo das décadas, espalhou-se por ambientes naturais. Na Argentina, por exemplo, a espécie é oficialmente classificada como exótica invasora e já ocorre em diferentes tipos de ambientes.
O alerta ganhou uma dimensão ainda maior neste ano. Em janeiro de 2026, um cervo-axis foi registrado no Pantanal de Mato Grosso do Sul, em uma propriedade cerca de 100 quilômetros ao sul de Corumbá, na região do Nabileque. O aparecimento tão distante das primeiras áreas de ocorrência no Sul chamou a atenção de pesquisadores para a velocidade e a dimensão potencial da expansão da espécie.
O CompreRural repercutiu o caso em fevereiro, destacando os possíveis impactos sobre cervídeos brasileiros, especialmente o veado-campeiro e o cervo-do-pantanal, além dos riscos de competição por recursos e transmissão de patógenos.
Cerca de 20 cervos aparecem em Alegrete
Agora, um novo vídeo volta a colocar o Rio Grande do Sul no centro dessa preocupação.
Nas imagens publicadas pelo Parque dos Mais 24h, é possível observar um bando de aproximadamente 20 cervos-axis reunido às margens de uma rodovia em Alegrete, município localizado na Fronteira Oeste do Rio Grande do Sul, em pleno bioma Pampa.
O tamanho do grupo chama a atenção. Não se trata de um exemplar isolado atravessando uma propriedade, mas de diversos animais concentrados no mesmo local. O comportamento é compatível com uma das características do chital: a formação de grupos numerosos. Literatura científica sobre a espécie na Argentina registra que ela pode formar agrupamentos superiores a 150 indivíduos em determinadas condições.
A presença junto à rodovia acrescenta outro componente ao problema: o risco de colisões com veículos. Registros anteriores no Sul já mostraram a espécie ocupando áreas cada vez mais próximas da atividade humana, inclusive zonas urbanas.
“Aqui já são praga”: alerta vindo do Uruguai
A publicação do vídeo provocou forte repercussão entre internautas, especialmente moradores do Rio Grande do Sul e do vizinho Uruguai.
Um dos comentários mais contundentes veio justamente de Salto, departamento uruguaio relativamente próximo da fronteira brasileira. Segundo o internauta, a realidade por lá serve como advertência do que pode acontecer caso as populações cresçam sem controle.
“Aqui em Salto, no Uruguai, há poucos anos eles se tornaram uma praga. Há bandos de 200 animais, que comem mais do que uma ovelha, não respeitam cercas e chegam a ter até duas crias por ano. São muito bonitos de ver, mas cuidado” – disse o internauta.
O relato é pessoal e os números mencionados pelo usuário não devem ser tratados como levantamento científico, mas a percepção de proliferação encontra respaldo no histórico regional. Estudos descrevem o cervo-axis como uma espécie capaz de alcançar altas densidades e formar grandes agrupamentos, além de provocar danos à vegetação e competir com o gado pelo uso de recursos alimentares.
Outro comentário foi ainda mais direto ao rebater a aparência aparentemente inofensiva dos animais. “Lindo nada, é invasor e mata o nosso veado-campeiro. Uma praga trazida da Argentina. Ele é de origem indiana.”
A afirmação de que o chital “mata” diretamente o veado-campeiro exige cautela. O problema cientificamente apontado é sobretudo a possibilidade de competição por alimento, espaço e outros recursos, além de impactos indiretos sobre populações nativas, e não necessariamente a predação ou morte direta do veado-campeiro. O primeiro estudo brasileiro sobre a invasão já destacava preocupação com possíveis interações competitivas entre o Axis axis e o veado-campeiro (Ozotoceros bezoarticus).
“O nosso Pampa precisa ser protegido”
Outro comentário publicado junto ao vídeo chamou atenção especificamente para a conservação do bioma gaúcho. “O nosso Pampa precisa ser protegido!”
Na sequência, o internauta lembra que o veado-campeiro já enfrenta diferentes pressões e alerta para a expansão do cervo-chital, espécie que não pertence originalmente à fauna brasileira.
Essa preocupação é particularmente relevante no Rio Grande do Sul. O primeiro registro científico do Axis axis no Brasil ocorreu justamente no Pampa, e os pesquisadores já alertavam que a chegada de uma espécie invasora poderia representar mais uma pressão sobre mamíferos nativos em uma paisagem fortemente modificada pelas atividades humanas.
Há ainda o componente produtivo. O cervo-axis é herbívoro e utiliza pastagens e outros recursos vegetais. Estudos argentinos apontam que, quando atinge altas densidades, pode causar danos à flora nativa e a plantações florestais, além de competir com o gado pelo alimento. Também existem preocupações sanitárias relacionadas à capacidade de cervídeos invasores atuarem como hospedeiros ou vetores de agentes que afetam animais domésticos e silvestres.
Capturar os animais seria a solução?
Entre os comentários também surgiu uma proposta aparentemente mais simples. “Acho que esses animais deveriam ser capturados por funcionários de órgãos públicos do meio ambiente e levados para uma área natural, cercada, de forma a manter o controle sobre eles, evitando prejudicar a fauna/flora silvestre.”
A manifestação revela justamente um dos grandes desafios impostos pelas espécies invasoras: o que fazer quando uma população começa a se estabelecer?
Capturar e manter dezenas ou centenas de animais em áreas cercadas envolve custos, estrutura, acompanhamento veterinário e avaliação técnica. Além disso, simplesmente transportar indivíduos para outro ambiente pode transferir o problema, caso não exista contenção permanente e manejo adequado.
Por isso, decisões sobre captura, remoção ou abate de controle precisam ser conduzidas pelos órgãos ambientais dentro de programas específicos de manejo, e não por iniciativa individual de proprietários ou moradores.
No Rio Grande do Sul, o problema já levou à adoção de medidas específicas. A Portaria SEMA nº 109/2022 estabeleceu procedimentos relacionados ao controle do cervo-axis em unidades de conservação estaduais, diante da preocupação com sua expansão.
O fantasma do javali
A comparação com o javali surge inevitavelmente, embora sejam espécies com biologia, impactos e regras de manejo diferentes.
O javali também começou como uma espécie exótica aparentemente restrita a determinadas regiões e, ao encontrar alimento abundante, ambientes favoráveis e capacidade de dispersão, espalhou-se por uma enorme extensão do território brasileiro. Hoje, seu controle representa um desafio ambiental, sanitário e econômico.
Pesquisadores que analisam o avanço do chital alertam justamente para o risco de o Brasil demorar a reagir enquanto a população ainda está em uma fase na qual o controle pode ser mais viável. A experiência internacional mostra que espécies invasoras se tornam progressivamente mais difíceis e caras de manejar conforme aumentam sua distribuição e densidade.
O flagrante de aproximadamente 20 animais em Alegrete, portanto, vai muito além de uma cena curiosa às margens de uma estrada.
É mais um sinal de que o cervo-axis está encontrando condições para ocupar o Pampa brasileiro.
Bonito aos olhos de quem o encontra pela primeira vez, o chital carrega um problema que não aparece nas imagens: ele não pertence à fauna brasileira. E o que hoje impressiona como um bando de cervos à beira da estrada pode se transformar, sem monitoramento e manejo adequados, em um desafio muito maior para produtores rurais, rodovias e, principalmente, para a biodiversidade do Pampa.
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