A cor da pelagem influencia quanto o boi come e bebe no calor? Estudo com Caracu encontra associação

Pesquisa com 94 tourinhos Caracu mostrou que o aumento do desafio térmico esteve ligado à redução do consumo de matéria seca e à maior ingestão de água; características da pele e da pelagem também apareceram associadas ao comportamento alimentar

A cor da pelagem do Caracu pode estar relacionada à forma como os bovinos consomem alimento e água diante das variações do ambiente térmico. É o que indica um estudo publicado na edição de setembro de 2026 da revista científica Livestock Science, que acompanhou 94 tourinhos Caracu em Sertãozinho, no interior de São Paulo. Nos modelos estatísticos utilizados pelos pesquisadores, pelagens mais escuras estiveram associadas a menor ingestão de matéria seca e de água.

O resultado, porém, não significa que a tonalidade do pelo determine sozinha quanto um bovino vai comer ou beber. Peso corporal, espessura da pele, características dos pelos e condições ambientais foram avaliados conjuntamente, e o próprio estudo trata os resultados como associações, não como prova de causa e efeito. O dado mais consistente foi a resposta ao ambiente: conforme aumentou o índice ajustado de temperatura e umidade, os animais comeram menos matéria seca e beberam mais água. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Estudo acompanhou 94 tourinhos por dois anos

A pesquisa foi realizada no Centro Avançado de Pesquisa em Bovinos de Corte do Instituto de Zootecnia, em Sertãozinho. Foram avaliados 46 animais em 2024 e 48 em 2025, sempre entre junho e setembro, durante testes de eficiência alimentar com duração de 70 dias.

No início das avaliações, os tourinhos tinham, em média, 287 dias de idade e 267 quilos de peso corporal. Antes da coleta definitiva dos dados, passaram por períodos padronizados de adaptação à dieta e às instalações.

O piquete experimental tinha cerca de 3 mil metros quadrados, 72 metros quadrados de sombra artificial, 12 cochos eletrônicos e quatro bebedouros eletrônicos. A identificação individual permitiu registrar continuamente quanto cada bovino consumia de alimento e água. Peso, espessura da pele, comprimento dos pelos e coloração foram medidos a cada 14 dias.

Essa estrutura permitiu analisar o consumo individual e, ao mesmo tempo, relacioná-lo às diferenças físicas entre os animais e às condições meteorológicas registradas durante os testes.

O que a cor da pelagem do Caracu mostrou

Um dos resultados que mais chama atenção envolve a tonalidade do pelo. No sistema de classificação usado pelos pesquisadores, escores maiores correspondiam a animais de coloração mais escura.

Depois dos ajustes estatísticos, cada ponto adicional no escore de cor esteve associado a uma redução média estimada de 0,242 quilo de matéria seca por animal/dia. Para o consumo hídrico, a associação foi de aproximadamente 1,43 litro a menos de água por animal/dia para cada ponto adicional no escore de coloração.

Isso não autoriza concluir que animais claros sejam necessariamente mais produtivos ou que selecionar bovinos apenas pela aparência seja uma estratégia de adaptação ao calor. A cor fazia parte de um conjunto de variáveis analisadas e pode estar relacionada a outras características fisiológicas ou genéticas não isoladas pelo experimento.

Os próprios autores destacam que os traços de pele e pelagem são dinâmicos. Ao longo dos testes, houve mudanças na espessura da pele, no comprimento dos pelos e na própria pontuação de cor, mostrando que essas características também variam com idade, desenvolvimento e período de avaliação.

Mais calor significou menos alimento e mais água

A resposta ao ambiente térmico foi mais direta. Os pesquisadores calcularam um índice ajustado de temperatura e umidade, chamado de THIadj, utilizado para representar a carga térmica enfrentada pelos bovinos.

Durante os experimentos, o índice médio ficou em 62 pontos, variando de 50 a 71. A temperatura média diária registrada foi de 22,44 °C, mas houve dias com máximas diárias próximas de 31,2 °C, enquanto a temperatura média de globo negro chegou a valores de até 38,11 °C.

Nos modelos estatísticos, cada ponto adicional do índice térmico esteve associado a uma redução de cerca de 0,04 quilo na ingestão diária de matéria seca. Ao mesmo tempo, o consumo de água apresentou aumento estimado de aproximadamente 0,45 litro por animal/dia para cada ponto adicional do THI ajustado.

A resposta é compatível com um mecanismo conhecido da termorregulação bovina. Quando a carga térmica aumenta, reduzir o consumo de alimento pode diminuir parte da produção interna de calor decorrente da digestão e do metabolismo. A água, por outro lado, torna-se ainda mais importante para a manutenção do equilíbrio térmico.

Esse comportamento já é observado no manejo de rebanhos durante períodos de temperatura elevada. Orientações técnicas reunidas pelo Compre Rural sobre cuidados com bovinos durante ondas de calor também apontam redução do consumo de matéria seca e aumento da necessidade de hidratação entre as consequências do desafio térmico.

Espessura da pele também entrou na equação

A pelagem não foi a única característica externa associada ao consumo. A espessura média da pele dos animais foi de 11,1 milímetros, com valores entre 4,7 e 18 milímetros.

No modelo estatístico, cada milímetro adicional de espessura esteve associado a aproximadamente 0,05 quilo a mais de matéria seca consumida por dia e cerca de 0,32 litro adicional de água.

O peso corporal também teve papel relevante, principalmente na alimentação. Os pesquisadores separaram os bovinos em três grupos — leves, intermediários e pesados — e identificaram o peso como um dos principais preditores da ingestão de matéria seca.

Já para o consumo de água, a categoria de peso corporal não apresentou associação estatisticamente significativa no modelo final. Nesse caso, fatores como ambiente térmico, ingestão de matéria seca, espessura da pele e coloração apresentaram maior relação com a quantidade consumida.

Resultado não transforma cor do pelo em critério isolado de seleção

É justamente aqui que está a principal cautela para o produtor. O trabalho não demonstra que escolher um Caracu mais claro fará automaticamente o animal suportar melhor o calor, beber mais água ou apresentar maior desempenho.

Também não significa que bovinos de pelagem mais escura sejam necessariamente menos adaptados.

Os resultados mostram relações estatísticas observadas dentro de uma população específica de animais Caracu, sob determinadas condições de manejo, alimentação e clima. Para transformar uma característica visual em ferramenta de melhoramento genético, seriam necessárias outras etapas, incluindo estudos sobre herdabilidade, relações genéticas e repetibilidade das respostas.

Uma pesquisa anterior, publicada em 2022 na revista Animals, ajuda a dimensionar essa complexidade. O trabalho avaliou 48 machos e 43 fêmeas Caracu antes e depois de oito horas de exposição ao sol e encontrou alterações em parâmetros fisiológicos, hormonais e sanguíneos causadas pelo calor. Apesar dessas respostas, a maioria dos indicadores permaneceu dentro de valores considerados normais para raças taurinas crioulas, reforçando a adaptação do Caracu às condições tropicais.

Portanto, adaptação térmica não pode ser explicada apenas pela tonalidade da pelagem. Ela envolve características da pele, pelos, metabolismo, capacidade de dissipar calor, comportamento e genética.

Caracu carrega séculos de seleção no ambiente brasileiro

O interesse científico pela raça também está ligado à sua história. De acordo com a Associação Brasileira de Criadores de Caracu, os bovinos que deram origem à raça chegaram ao Brasil ainda no período colonial, com registros de introdução em 1534, na Capitania de São Vicente.

Ao longo de quase cinco séculos, populações taurinas de origem ibérica passaram por seleção sob condições tropicais brasileiras. Atualmente, o Caracu é reconhecido justamente pela rusticidade e adaptação ao ambiente quente.

O papel dessas características também aparece nas discussões sobre genética para termotolerância. O Compre Rural já abordou a presença de características relacionadas a pelos curtos e tolerância ao calor em bovinos adaptados, enquanto a raça também aparece entre os bovinos nativos e adaptados encontrados no Brasil.

O novo estudo acrescenta uma informação diferente a essa discussão: além de respostas fisiológicas ao calor, características visíveis do animal apareceram relacionadas ao próprio padrão de ingestão de alimento e água.

O que o produtor pode tirar dessa pesquisa?

Para o manejo na fazenda, o resultado mais aplicável não é escolher bovinos pela cor. É reconhecer que mesmo animais adaptados ao ambiente tropical mudam seu comportamento alimentar conforme aumenta o desafio térmico.

Água limpa e disponível, dimensionamento adequado dos bebedouros, acesso à sombra e observação de alterações no consumo permanecem medidas importantes. Uma queda no consumo de alimento acompanhada de maior busca por água pode ser um dos sinais de que a condição ambiental está exigindo ajustes fisiológicos do rebanho.

Em sistemas que utilizam cochos e bebedouros eletrônicos, alterações desse tipo podem ser percebidas individualmente antes de se transformarem em perdas mais evidentes de desempenho.

Do ponto de vista do melhoramento genético, os resultados abrem outra linha de investigação. Os autores defendem que informações sobre pele e pelagem sejam integradas a dados produtivos e genéticos para determinar se esses fenótipos podem, no futuro, contribuir para a identificação de animais mais eficientes sob condições tropicais.

Por enquanto, a principal conclusão é mais ampla: peso corporal, características da pele e da pelagem e ambiente térmico interagem com os padrões de consumo do Caracu. A cor chamou atenção no modelo estatístico, mas está longe de contar sozinha toda a história da adaptação bovina ao calor.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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