Abelhas que produzem mel roxo intrigam cientistas e escondem um mistério ainda sem resposta; vídeo

Fenômeno raro aparece de forma imprevisível em colmeias da Carolina do Norte, nos Estados Unidos; pesquisas já descartaram algumas das principais suspeitas, mas a origem da surpreendente tonalidade violeta continua sem uma resposta definitiva.

Imagine abrir uma colmeia esperando encontrar o tradicional mel dourado ou âmbar e descobrir, dentro dos favos, um líquido naturalmente roxo, às vezes tão intenso que lembra a cor de suco de uva. Não se trata de corante, aromatizante ou intervenção do apicultor. É mel produzido pelas próprias abelhas.

O fenômeno ocorre especialmente na Carolina do Norte, nos Estados Unidos, com registros associados sobretudo à região de Sandhills e à planície costeira do estado. A própria NC State Extension reconhece que algumas abelhas da Coastal Plain produzem o chamado “purple honey” — o mel roxo.

Mais intrigante que a aparência é o fato de que a ciência ainda não conseguiu determinar definitivamente por que ele fica roxo.

Durante décadas, surgiram explicações envolvendo frutas silvestres, flores de kudzu, composição do solo e até reações químicas ocorridas durante o processamento do néctar pelas abelhas. Uma pesquisa publicada em 2024 avançou na investigação e derrubou algumas dessas hipóteses, mas não encerrou o mistério.

Nem toda colmeia consegue produzir o mel roxo

A raridade começa dentro do próprio apiário.

Relatos de apicultores mostram que duas colônias instaladas praticamente lado a lado podem apresentar resultados completamente diferentes: uma produz mel roxo enquanto a outra continua armazenando mel de aparência convencional.

Além disso, não existe até agora um protocolo conhecido capaz de fazer o apicultor reproduzir o fenômeno de maneira previsível. A produção pode aparecer em determinada temporada e desaparecer posteriormente. Há também anos em que a quantidade é tão pequena que praticamente não permite uma colheita comercial.

A ocorrência tem sido observada especialmente durante os meses mais quentes, e há relatos de maior incidência em determinadas condições de seca. Essa irregularidade ajuda a explicar por que o produto se transformou em uma verdadeira curiosidade da apicultura norte-americana.

O mel roxo veio de uma colmeia da Secret Garden Bees, no condado de Cumberland. Foto: David Ivey

Afinal, por que o mel fica roxo?

Essa é justamente a pergunta que pesquisadores tentam responder.

Uma das explicações populares atribuía a coloração ao kudzu (Pueraria), planta invasora bastante conhecida no sudeste dos Estados Unidos e que produz flores arroxeadas.

Mas uma investigação publicada em 2024 na revista científica Palynology analisou a composição polínica de uma amostra de mel roxo coletada no sul da Carolina do Norte.

O resultado trouxe uma descoberta importante: não foi encontrado pólen de kudzu na amostra, enfraquecendo fortemente a ideia de que essa planta seja responsável pela tonalidade característica.

E as frutas roxas? Outra explicação perdeu força

Outra hipótese bastante difundida dizia que as abelhas poderiam consumir ou coletar substâncias provenientes de mirtilos, amoras ou outras frutas, levando seus pigmentos até a colmeia.

A pesquisa também não encontrou evidências convincentes para sustentar essa explicação.

Os cientistas não identificaram na amostra de mel roxo pólen de Ericaceae — grupo que inclui plantas como os mirtilos — nem de Rosaceae, família que inclui diversas frutas. Curiosamente, esses pólens apareceram com frequência em amostras convencionais de mel dourado analisadas no trabalho.

Ou seja: a associação aparentemente óbvia entre frutas roxas e mel roxo não encontrou respaldo nessa investigação.

Uma reação química dentro da colmeia?

Uma das hipóteses mais interessantes surgiu a partir de trabalhos realizados décadas atrás na Carolina do Norte.

Experimentos associados ao pesquisador John Ambrose observaram que as abelhas que retornavam para determinadas colmeias não necessariamente carregavam conteúdo azul ou roxo em seus estômagos de mel. A alteração de cor parecia ocorrer depois que o material chegava à colônia.

Isso abriu espaço para outra linha de investigação: a possibilidade de uma reação envolvendo minerais, acidez e compostos presentes no néctar.

Entre as hipóteses está uma possível relação entre o alumínio presente em solos da região e determinadas plantas, especialmente o sourwood (Oxydendrum arboreum). Em determinadas condições, compostos provenientes dessas plantas poderiam interagir com o ambiente químico relacionado ao processamento do néctar pelas abelhas e contribuir para a tonalidade azulada ou violeta.

O estudo publicado em 2024 considerou a hipótese envolvendo sourwood e alumínio ainda plausível, mas não suficiente para declarar o caso encerrado.

Portanto, a resposta cientificamente correta continua sendo menos espetacular — e justamente por isso mais interessante: a origem exata da cor do mel roxo permanece sem comprovação definitiva.

Foto: Hawfield’s Honey House

Um mel que também é diferente no sabor

A peculiaridade não termina na aparência.

Apicultores e consumidores que já experimentaram o produto descrevem frequentemente um perfil mais frutado, por vezes associado a notas que lembram uva ou frutas silvestres. Isso não significa, porém, que haja frutas adicionadas ao produto.

Como acontece com qualquer mel, aroma, sabor, cor e composição dependem da vegetação visitada pelas abelhas, das condições ambientais e da concentração dos diferentes compostos presentes no néctar.

Há inclusive divergências entre degustadores, reforçando que diferentes lotes de mel roxo podem apresentar características sensoriais distintas.

Raridade transforma pequenos lotes em produto valorizado

A combinação entre aparência incomum, produção limitada e impossibilidade de prever quando o fenômeno ocorrerá também criou um pequeno mercado para o mel roxo.

Há apicultores que comercializam os lotes por valores superiores aos cobrados pelo mel convencional. Um produto atualmente anunciado por um apiário especializado da Carolina do Norte, por exemplo, aparece em embalagem de apenas 2 onças — cerca de 57 gramas — por US$ 50, embora estivesse esgotado no momento da consulta.

O preço não representa necessariamente todo o mercado, mas ajuda a dimensionar como raridade e disponibilidade extremamente limitada podem aumentar o valor percebido de produtos apícolas especiais.

Para a apicultura, esse ponto é particularmente interessante. O mel é frequentemente tratado como uma commodity alimentar, mas origem geográfica, florada, características sensoriais e história podem criar nichos de alto valor agregado.

O que o mel roxo ensina à apicultura brasileira

O fenômeno norte-americano parece distante da realidade brasileira, mas carrega uma discussão bastante próxima do produtor nacional.

O Brasil reúne enorme diversidade de floradas e ambientes, permitindo a obtenção de méis com diferenças marcantes de cor, aroma, sabor, composição e identidade regional.

Em vez de competir exclusivamente pelo volume, uma parcela da apicultura pode avançar justamente pela diferenciação.

Méis monoflorais, produtos associados a biomas específicos, indicações geográficas, rastreabilidade, certificação de origem e características sensoriais diferenciadas oferecem caminhos para transformar uma produção aparentemente simples em um alimento de maior valor agregado.

O caso da Carolina do Norte mostra algo ainda mais interessante: as características ambientais de uma pequena região podem gerar um produto difícil de reproduzir em qualquer outro lugar.

É a lógica do terroir, tão conhecida no vinho e no café, aparecendo também na apicultura.

Um dos mistérios mais curiosos dentro de uma colmeia

Depois de décadas de observações, experiências e hipóteses, o mel roxo continua guardando parte de seu segredo.

A ciência já conseguiu avançar. A teoria de que a coloração seria simplesmente resultado do kudzu perdeu sustentação após a análise polínica de 2024. A associação direta com frutas como mirtilos e amoras também não encontrou evidências naquela investigação. Enquanto isso, reações envolvendo plantas, características do solo, alumínio e o próprio processamento do néctar pelas abelhas permanecem entre as possibilidades estudadas.

E talvez a característica mais fascinante esteja justamente na imprevisibilidade.

Em determinados apiários da Carolina do Norte, milhares de abelhas podem visitar a mesma paisagem durante semanas. No final da temporada, o apicultor abre duas colmeias vizinhas: uma guarda o conhecido mel dourado; a outra, por razões que ainda desafiam uma explicação completa, pode revelar favos preenchidos por um raro mel violeta.

@smithsnursery

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