Além do filé, tilápia vira matéria-prima para cosméticos, ração e biodiesel

Economia circular na produção de tilápia permite aproveitar pele, escamas e outros coprodutos; na Fider, materiais ganham destinos comerciais no Brasil e no exterior

O filé de tilápia que chega à mesa do consumidor representa apenas uma parte das oportunidades de negócio geradas pelo peixe. Na Fider Pescados, em Rifaina (SP), cerca de 70% da massa corporal que permanece após a retirada do filé recebe outras destinações comerciais, abastecendo segmentos como cosméticos, nutrição animal e energia renovável.

O modelo traduz, na prática, o conceito de economia circular na produção de tilápia: aproveitar materiais que poderiam terminar no descarte e transformá-los em matérias-primas para outras indústrias. Enquanto pele e escamas seguem para a extração de colágeno no exterior, os demais coprodutos são processados para a produção de farinha e óleo de peixe, ampliando as fontes de receita da operação.

Pele e escamas chegam ao mercado de cosméticos

Segundo informações da Fider, a pele representa aproximadamente 5% da tilápia processada. O material é congelado, organizado em blocos e exportado. Já as escamas, equivalentes a cerca de 2% do peixe, passam por lavagem e secagem antes da comercialização.

A empresa destina aproximadamente 60 toneladas mensais de pele e 10 toneladas de escamas secas ao mercado asiático, incluindo países como Japão e Indonésia. Nesses destinos, os materiais são utilizados na extração de colágeno empregado na fabricação de cosméticos e produtos de cuidados pessoais.

“Apoiar um mercado em constante crescimento, como o de cosméticos, é um grande trunfo para a economia circular que implementamos na Fider. É uma maneira de aumentar a rentabilidade da produção e, ao mesmo tempo, oferecer à indústria um insumo de excelente qualidade, origem comprovada e com produção sustentável”, destaca Juliano Kubitza, diretor da Fider.

A valorização desses materiais também aparece em outras aplicações já abordadas pelo Compre Rural, como o uso da pele de tilápia na produção de curativos para queimaduras.

Farinha e óleo abastecem nutrição animal e biodiesel

Após a retirada do filé, da pele e das escamas, cerca de 60% da tilápia processada segue para a fábrica de farinha e óleo da Fider, localizada ao lado da unidade de processamento, em Rifaina.

De acordo com a empresa, a estrutura produz, em média:

CoprodutoProdução mensalPrincipais destinos
Farinha de peixe120 toneladasFormulação de rações, especialmente para o mercado pet
Óleo de peixe120 toneladasNutrição animal e usinas de biodiesel

As exportações representam praticamente a totalidade das vendas de farinha, segundo a Fider. O óleo, por sua vez, atende tanto à alimentação animal quanto à cadeia de combustíveis renováveis.

Para Samuel Carvalho, coordenador de produção da Fider Pescados, o aproveitamento do peixe gera benefícios que ultrapassam a redução de resíduos.

“Quando transformamos materiais que antes seriam descartados em produtos valorizados por diferentes mercados, ampliamos a eficiência da cadeia produtiva e reduzimos desperdícios. É uma forma de gerar valor a partir da própria sustentabilidade, mostrando que responsabilidade ambiental também impulsiona a inovação e novos negócios”, afirma.

Qualidade da matéria-prima define o valor dos coprodutos

A destinação comercial exige cuidados desde o processamento do pescado. Segundo a Fider, os coprodutos são processados imediatamente após o abate, contribuindo para preservar o frescor da matéria-prima e reduzir a oxidação.

A farinha produzida apresenta cerca de 65% de proteína bruta, além de alta digestibilidade, conforme informações da empresa. Já o óleo registra teor de acidez inferior a 1%, característica que favorece sua valorização comercial.

Esses cuidados se conectam à importância da qualidade e da rastreabilidade na produção brasileira de tilápia, fatores relevantes para atender às exigências de diferentes compradores.

Economia circular amplia as oportunidades da tilapicultura

Para a indústria de processamento, aproveitar os coprodutos significa extrair mais valor de cada peixe, diversificar mercados e reduzir a quantidade de materiais destinados ao descarte. O filé permanece como carro-chefe, mas passa a integrar uma operação com outras fontes de faturamento.

O caso da Fider mostra como a tilapicultura pode conectar a produção de alimentos a cadeias industriais distintas. Da pele destinada ao colágeno ao óleo utilizado como matéria-prima para biodiesel, a economia circular transforma o aproveitamento do pescado em uma estratégia de eficiência produtiva e geração de negócios.

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