Primeiro episódio de mortalidade em massa associado ao H5N1 no país aumenta a vigilância sobre a avicultura, enquanto autoridades tentam impedir que o vírus saia da fauna silvestre e alcance a produção comercial
A gripe aviária na Austrália ganhou um novo capítulo que coloca o setor agropecuário em estado de atenção. Autoridades confirmaram nesta segunda-feira (3) o primeiro episódio de mortalidade em massa provocado pelo H5N1 no país, após dezenas de aves marinhas serem encontradas mortas ou debilitadas no estado da Austrália do Sul. Embora o vírus ainda não tenha sido identificado em granjas comerciais, seu avanço entre animais silvestres aumenta o desafio de proteger uma cadeia avícola bilionária.
O episódio foi registrado em Baudin Rocks, próximo à cidade de Cape Jaffa. No local, foram encontradas 49 aves mortas e outras 35 apresentando sinais de doença. Análises laboratoriais realizadas pelo centro nacional australiano de pesquisas confirmaram a presença do H5N1 de alta patogenicidade.
A ocorrência representa uma mudança importante no cenário sanitário australiano. Até então, o acompanhamento estava concentrado principalmente em detecções pontuais. A concentração de animais afetados em uma mesma área mostra que a circulação do vírus entre populações silvestres entrou em uma fase que exige maior vigilância.
Gripe aviária na Austrália coloca avicultura em alerta
O ponto de maior preocupação para o agronegócio é a possibilidade de o vírus migrar da fauna silvestre para aves mantidas em sistemas comerciais.
A ministra da Agricultura da Austrália, Julie Collins, reconheceu que novas detecções são esperadas e que o número de animais silvestres atingidos pode crescer conforme o H5N1 se dissemina pelo território.
Desde as primeiras identificações realizadas em junho, 74 ocorrências relacionadas ao vírus já haviam sido confirmadas no país, segundo informações divulgadas pelas autoridades australianas e reportadas pela Reuters.
O aumento dos registros exige atenção especial porque aves silvestres podem percorrer grandes distâncias e ter contato indireto com áreas rurais, fontes de água, instalações e equipamentos utilizados na produção.
Biossegurança vira principal barreira dentro das propriedades
Com o vírus circulando fora das granjas, produtores dependem principalmente de protocolos de biossegurança para reduzir as chances de contaminação.
O H5N1 pode ser transportado indiretamente por materiais contaminados, incluindo calçados, roupas, equipamentos e veículos, além do contato com secreções ou fezes de aves infectadas.
Entre as práticas recomendadas pelas autoridades estão o controle mais rigoroso da entrada de pessoas nas propriedades, higienização de equipamentos, proteção das fontes de alimento e água e redução do contato entre aves comerciais e animais silvestres.
Para sistemas de criação ao ar livre, o desafio é ainda maior, já que impedir completamente a aproximação de aves migratórias ou residentes pode ser inviável.
Granjas comerciais continuam sem casos de H5N1
Apesar do avanço entre aves selvagens, não há confirmação do H5N1 em estabelecimentos comerciais australianos até o momento.
Essa condição é fundamental para o setor porque surtos dentro de granjas podem exigir medidas sanitárias muito mais severas, incluindo eliminação de plantéis infectados, interdição das propriedades e estabelecimento de zonas de controle.
Também existe uma preocupação econômica.
Dados do Australian Bureau of Agricultural and Resource Economics and Sciences indicam que o valor do abate de aves no país ficou próximo de 4,2 bilhões de dólares australianos em 2025/26, demonstrando a importância da cadeia para o agronegócio local.
Evitar a entrada do vírus nesse sistema produtivo tornou-se, portanto, uma das prioridades das autoridades sanitárias.
Gripe aviária na Austrália também preocupa exportadores
A presença do vírus exclusivamente em aves silvestres não provoca automaticamente a perda do status sanitário da produção comercial pelas regras internacionais. Mesmo assim, países compradores podem adotar medidas preventivas próprias.
Esse risco já ficou evidente depois das primeiras detecções australianas.
Papua-Nova Guiné chegou a restringir temporariamente a entrada de determinados produtos avícolas provenientes da Austrália. A maior parte da medida posteriormente foi retirada, mas o episódio mostrou como uma emergência sanitária pode rapidamente ultrapassar as propriedades rurais e chegar ao comércio exterior.
O cenário seria mais delicado caso uma granja comercial apresentasse resultado positivo. Dependendo das regras adotadas pelos compradores, poderiam surgir suspensões nacionais ou restrições direcionadas apenas às regiões afetadas.
Por que o H5N1 preocupa o setor avícola mundial
O H5N1 de alta patogenicidade pertence ao clado 2.3.4.4b, linhagem que avançou por diversos continentes nos últimos anos.
Sua importância sanitária está associada à capacidade de provocar alta mortalidade entre determinadas espécies de aves e de circular por populações selvagens, tornando o controle mais complexo do que surtos restritos a propriedades comerciais.
Além das aves, infecções já foram registradas internacionalmente em diferentes espécies de mamíferos. Essa capacidade de alcançar novos hospedeiros mantém pesquisadores e órgãos sanitários em acompanhamento permanente da evolução do vírus.
Para a Austrália, existe ainda outro fator relevante: parte da fauna local é formada por espécies encontradas exclusivamente naquele território. Isso dificulta prever com precisão como determinados grupos poderão reagir caso o H5N1 continue avançando.
O desafio agora é impedir que o vírus atravesse a porteira
O primeiro episódio de mortalidade em massa não significa que a Austrália esteja enfrentando um surto dentro de sua produção avícola. Entretanto, a distância entre o vírus e o ambiente comercial diminuiu à medida que sua circulação se amplia entre aves silvestres.
É justamente nesse ponto que estará o principal desafio das próximas semanas.
Produtores precisam reforçar a prevenção enquanto autoridades ampliam o monitoramento das populações selvagens. Novas detecções ajudarão a determinar a velocidade e a extensão da disseminação.
ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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