Arroba do boi pode buscar R$ 500? Maurício Velloso diz que questão não é “se”, mas “quando”

Presidente da Assocon aponta redução dos rebanhos, menor produção de bezerros e demanda aquecida como fundamentos para um novo ciclo de valorização da pecuária – do bezerro ao boi gordo; reposição também pode avançar

A possibilidade de a arroba do boi gordo alcançar patamares próximos de R$ 500 voltou ao debate no mercado pecuário. Para Maurício Velloso, pecuarista e presidente da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon), os fundamentos de oferta e demanda indicam um cenário de valorização no longo prazo. Na avaliação do dirigente, mais importante do que tentar determinar uma data exata para o movimento é entender a tendência desenhada pela redução da oferta de animais e pela demanda mundial por carne bovina.

“A questão não é se vai chegar, é quando vai chegar”, afirmou Velloso ao analisar a perspectiva para os preços da arroba. A declaração não representa uma previsão de que o boi atingirá imediatamente R$ 500, mas uma leitura sobre o comportamento esperado para o ciclo pecuário nos próximos anos.

Menos gado e demanda aquecida sustentariam o movimento

Segundo Velloso, um dos principais fundamentos está na redução dos rebanhos bovinos em importantes regiões produtoras do mundo, acompanhada pelo crescimento do consumo e dos abates e pela menor produção de bezerros.

“Em todo lugar do planeta, a gente está tendo menos gado. Nos últimos seis anos, consecutivamente, há um aumento do consumo, há um aumento do abate e há uma diminuição na produção de bezerros”, afirmou.

Na interpretação do presidente da Assocon, esse movimento significa que os estoques bovinos estão sendo pressionados para atender uma demanda que permanece aquecida. O resultado seria uma relação entre oferta e consumo mais favorável à valorização do gado.

Para o Brasil, Velloso enxerga uma oportunidade adicional. O país estaria entre os poucos grandes produtores capazes de ocupar parte do espaço deixado pelo déficit entre produção e consumo mundial, especialmente por ainda possuir margem para elevar a eficiência produtiva sem necessariamente depender de uma expansão proporcional do rebanho.

Bezerro pode antecipar movimento do boi gordo

A reposição ocupa posição central na análise. Velloso cita um estudo de Rogério Goulart, da Carta Pecuária, sobre movimentos históricos do preço do bezerro e considera que o mercado pode caminhar para patamares significativamente superiores aos atuais.

Partindo de uma referência de aproximadamente R$ 3.200 por bezerro, o pecuarista considera possível que o animal alcance valores próximos de R$ 6 mil ao longo do ciclo. Ele ressalva, porém, que não é possível estabelecer com precisão se o pico será de R$ 5,9 mil, R$ 6,1 mil, R$ 6,4 mil ou outro valor próximo.

“Seguramente, o patamar do bezerro não será mais o R$ 3.000, R$ 4.000. O teto do bezerro deverá ser ao redor dos R$ 6.000”, projetou.

Essa valorização da reposição seria justamente um dos sinais antecedentes para o mercado do boi gordo.

E a arroba a R$ 500?

Velloso chama atenção para a relação histórica entre o valor da arroba do bezerro e a arroba do animal terminado. Segundo ele, a arroba equivalente do bezerro já atingiu e ultrapassou a faixa dos R$ 500 em determinadas negociações, enquanto o boi gordo ainda permanece distante desse nível.

É a partir dessa diferença que surge sua tese para os próximos ciclos.

“A arroba do boi sempre, historicamente, seguiu a arroba do bezerro”, afirmou. Para Velloso, portanto, o movimento observado na reposição pode funcionar como uma antecipação do caminho que posteriormente será percorrido pelo boi terminado.

Isso não significa, contudo, que exista uma data definida para uma arroba de R$ 500. O próprio presidente da Assocon evita cravar quando o mercado poderia atingir esse patamar.

Ciclo pode mudar as contas dentro da fazenda

Caso a projeção se confirme, a valorização não ficaria restrita ao boi terminado. Bezerro e reposição mais caros alteram diretamente o custo de produção de recriadores, invernistas e confinadores, ao mesmo tempo em que podem melhorar a receita de produtores posicionados na cria.

Por isso, a discussão vai além de tentar acertar qual será a cotação máxima da arroba. O ponto central levantado por Velloso é a possibilidade de a pecuária caminhar para um período de oferta mais restrita diante de uma demanda que permanece forte.

Para quem precisa comprar reposição ou planejar animais que serão abatidos meses à frente, antecipar essa mudança de ciclo pode ser tão importante quanto acompanhar diariamente a cotação do boi gordo.

Na avaliação de Maurício Velloso, os fundamentos já estão dando sinais. A grande pergunta, portanto, deixa de ser apenas quanto valerá a arroba e passa a ser quanto tempo o mercado levará para transformar a menor oferta de animais em preços mais elevados para o produtor.

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