Arroz verde pode abrir nova frente de produção em meio ao risco de seca

Programa da UFLA desenvolve cultivares para terras altas e avalia o uso de edição gênica para aumentar a tolerância à falta de água

Produzir arroz com menor dependência da irrigação e ampliar as regiões capazes de cultivar o grão são os objetivos de uma pesquisa da Universidade Federal de Lavras (UFLA). Por meio do programa Melhor Arroz, pesquisadores desenvolvem linhagens de arroz de terras altas, também chamado de arroz de sequeiro, com foco em produtividade, qualidade dos grãos e tolerância à seca.

O trabalho pode abrir uma nova opção para agricultores que já cultivam soja, milho e feijão, além de contribuir para a diversificação da produção nacional. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) citados pela pesquisa, mais de 80% do arroz brasileiro vem de sistemas irrigados, concentrados principalmente no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Tocantins.

“O arroz inundado consome muita água e também é um dos grandes responsáveis pela emissão de metano, um gás relacionado ao efeito estufa. O arroz de terras altas surge como uma alternativa mais sustentável”, explica Flávia Barbosa Silva Botelho, pesquisadora e coordenadora do Melhor Arroz.

Diversificar a produção pode reduzir riscos

O Brasil produz aproximadamente 11 milhões de toneladas de arroz por ano, volume próximo ao consumo nacional. Para os pesquisadores, a concentração da produção em poucas regiões aumenta a exposição do abastecimento a eventos climáticos extremos, como as enchentes registradas no Rio Grande do Sul.

“Não dá para o Brasil depender de uma única região produtora de arroz. Se houver uma grande quebra de safra, não existe mercado externo suficiente para suprir essa demanda”, alerta Flávia.

O Melhor Arroz busca desenvolver cultivares adaptadas às condições de Minas Gerais. “O principal objetivo hoje é desenvolver genótipos produtivos, com qualidade de grão, precoces e tolerantes à seca. Isso reduz o risco para o produtor e fortalece a produção nacional de arroz”, destaca a pesquisadora.

Arroz pode entrar na rotação de culturas

O arroz de terras altas pode ser cultivado em sistemas agrícolas semelhantes aos utilizados para soja e milho. Isso permite sua inclusão na rotação ou sucessão com soja, milho, feijão e trigo, sem a necessidade de substituir as culturas já estabelecidas.

Além de ampliar as opções comerciais do produtor, a diversificação pode favorecer o manejo de plantas daninhas. Em áreas onde há uso contínuo dos mesmos herbicidas, a entrada de outra cultura permite alternar práticas de controle e enfrentar problemas de resistência.

“O arroz entra como mais uma opção para o produtor e ajuda a manter a sustentabilidade do sistema de produção”, afirma Flávia.

Pesquisa investiga tolerância à seca

A falta de água ainda é um dos principais desafios para o arroz de sequeiro. Em parceria com a Universidade de Arkansas, a equipe da UFLA estuda o uso da técnica de edição gênica CRISPR-Cas9 para alterar genes de interesse e investigar caminhos para aumentar a tolerância das plantas à seca.

Essa frente integra um trabalho de melhoramento iniciado há mais de uma década. Criado em 2013, o programa Melhor Arroz reúne a UFLA, a Embrapa Arroz e Feijão e a Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig).

Uma das linhagens desenvolvidas, a CMG1590, está em fase final de registro no Ministério da Agricultura. Outras dezenas de genótipos de elite seguem em avaliação. Desde a criação do programa, as pesquisas com arroz resultaram em mais de 60 artigos científicos, 28 dissertações de mestrado e 17 teses de doutorado.

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