Bezerros batem recorde e confinador tem sinal vermelho

Bezerros batem recorde e confinador tem sinal vermelho

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Faz. Elge

A alta acumulada no preço do bezerro nos últimos 12 meses atingiu 60% em março, superando a valorização da arroba do boi gordo no mesmo período.

Há 50 anos atuando na pecuária, Carlos Guaritá, diretor da Leiloboi em Mato Grosso do Sul, nunca viu uma valorização tão expressiva do bezerro. “Tem gente vendendo o bezerro mamando no pé da vaca porque a pessoa está com tanta vontade de comprar que compra o bezerro para receber em abril e maio”, conta.

Segundo ele, as operações ocorrem com parte do pagamento no ato da reserva e o restante na entrega. “Eu, há tantos anos na atividade, nunca tinha visto isso como tenho visto de dois anos pra cá.”

A demanda aquecida pelos animais ocorre a despeito dos preços recordes. A alta acumulada no preço do bezerro nos últimos 12 meses atingiu 60% em março, superando a valorização da arroba do boi gordo no mesmo período, cujo preço subiu de 51,4%. O levantamento é do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea-Esalq/USP).

“Normalmente, um bezerro vale cerca de 25% de uma arroba e hoje está valendo 50%. Tem bezerro sendo comercializado a R$ 450 a arroba, e a gente não sabe até que ponto isso vai se sustentar”, observa o diretor técnico da Associação de Criadores de Gado do Mato Grosso (Acrimat), Francisco de Sales Manzi, ao lembrar que, por muitos anos, o cenário foi o inverso.

“A margem do invernista diminuiu realmente. Porque o criador está sendo beneficiado. Depois de tantos anos chegou a vez do criador”, completa Guaritá. A conta é simples: se a reposição dos animais está mais cara que o seu valor final, o pecuarista que atua na engorda do rebanho inicia a operação já com margens mais apertadas.

“Se você comprar o bezerro caro apostando numa alta do boi, é uma loteria. Pode acontecer ou não. Ano passado aconteceu”, lembra o sócio-diretor da Athenagro, Maurício Palma Nogueira. Ele observa que o aperto das margens não torna impossível obter lucro na operação, mas exigirá maior gestão dos custos este ano.

“Durante o processode produção, o pecuarista consegue diluir o custo dessa arroba do bezerro até que caiba dentro do boi que será vendido lá na frente. Costuma ganhar mais e poder pagar mais pelo bezerro quem termina o animal mais pesado e em menor tempo”, explica Nogueira, ao destacar que o cenário atual de mercado deve acentuar o processo de profissionalização do setor.

É consciente disso que muitos têm buscado serviços especializados na engorda, os “boiteis”, ou revisto o tamanho da operação, segundo relata o presidente da Associação Nacional da Pecuária Intensiva (Assocon), Maurício Velloso.

“A procura vai ser grande e os confinamentos menos profissionais deverão diminuir a produção não apenas pela questão de estoque do boi magro, mas principalmente pelo custo de produção muito alto e isso deixa o pecuarista menos profissional assustado pela questão de volume de desembolso”, conta o pecuarista que estima uma redução de até 10% no confinamento este ano.

No boi a pasto, o segredo está na essência da arte da atividade: a hora de colocar e tirar o gado do pasto. “Essa é a grande tecnologia. Todas as outras são acessórias a essa tecnologia. Pode ser algo que pareça óbvio, mas sem isso todo resto se torna desperdício”, observa o presidente da Assocon.

O diretor técnico da Acrimat concorda e faz um alerta: sem profissionalização e uma gestão eficiente, muitos devem fechar no prejuízo este ano. “Nunca foi tão importante ser profissional como agora. Hoje o pecuarista que é muito eficiente, que compra bem seus insumos, tem uma boa escala de abates e de lotação da fazenda, está ganhando um pouco de dinheiro. Mas aquele produtor que não leva em conta tudo isso pode, pelo contrário, estar perdendo dinheiro”, alerta Manzi.

Os preços recordes de soja e milho, que contribuem para pressionar os custos dos confinamentos, têm um peso ainda maior sobre os criadores de aves e suínos. O diretor executivo da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV) e do Sindicato das Indústrias Frigoríficas do Estado (Sindifrigo), Jorge Luiz de Lima, diz que o setor está trabalhando com margem negativa nas operações e, olhando só para aves, as empresas devem fechar o primeiro trimestre no vermelho porque não repassaram custos desde o início do ano passado”.

O gerente de consultoria agro do Banco Itaú, Guilherme Belloti, diz que devido às perspectivas de manutenção de preços elevados para grãos nos próximos dois anos, a previsão é de aperto nas margens do setor de proteína animal – sobretudo nas operações de mercado interno, onde a indústria tem encontrado mais dificuldade de repassar preços ao consumidor final. “A grande saída provavelmente é o aumento dos preços em dólares nas exportações”, diz ele.

Fonte: Globo Rural

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