Atraso no fornecimento, baixa qualidade do colostro e falhas no acompanhamento dos recém-nascidos podem comprometer a imunidade e elevar o risco sanitário no rebanho
As falhas evitáveis na colostragem estão entre os problemas de manejo capazes de comprometer a sobrevivência e a saúde dos bezerros logo no início da vida. O recém-nascido depende do colostro para adquirir anticorpos maternos essenciais à proteção contra agentes infecciosos presentes no ambiente. Por isso, erros cometidos nas primeiras horas após o parto podem ter consequências que aparecem dias ou semanas depois.
O desafio não está apenas em garantir que o animal mame. Para que a transferência de imunidade seja eficiente, o produtor precisa observar fatores como momento do fornecimento, qualidade do colostro, quantidade ingerida, condição do bezerro e higiene durante o processo.
Falhas evitáveis na colostragem começam nas primeiras horas
O intestino do bezerro possui uma capacidade temporária de absorver as imunoglobulinas presentes no colostro. Essa eficiência é maior logo após o nascimento e diminui progressivamente com o passar das horas.
De acordo com o Merck Veterinary Manual, a absorção de anticorpos cai de forma acentuada entre seis e oito horas após o parto e se torna muito limitada ao redor das primeiras 24 horas de vida.
Essa característica faz do tempo um dos elementos mais importantes do protocolo. Mesmo um colostro de ótima qualidade pode ter aproveitamento inferior quando fornecido tarde demais.
O mesmo manual destaca que bezerros com transferência inadequada de imunidade podem apresentar probabilidade de adoecer entre três e nove vezes maior antes da desmama, além de risco de mortalidade aproximadamente cinco vezes superior aos animais com transferência adequada.
Nem todo bezerro que mama recebe proteção suficiente
Observar o animal junto à mãe não garante que a quantidade ingerida tenha sido adequada.
Problemas durante o parto, fraqueza, dificuldade para permanecer em pé e redução do reflexo de sucção podem atrasar o acesso ao úbere. Em sistemas nos quais não existe acompanhamento próximo da maternidade, essas situações podem passar despercebidas.
Uma revisão publicada em 2025 na revista científica Animals apontou que características relacionadas ao vigor neonatal estão entre os fatores associados à falha na transferência de imunidade passiva em bovinos de corte.
A Penn State Extension também alerta que uma parcela expressiva dos bezerros deixados exclusivamente para mamar naturalmente pode não ingerir colostro suficiente. O dado reforça a importância de protocolos capazes de verificar o consumo, principalmente entre animais de maior risco.
Quanto colostro deve ser fornecido?
O volume recomendado depende do peso do animal, da raça e do protocolo adotado pela propriedade.
Para bezerros leiteiros, referências do Merck Veterinary Manual indicam o fornecimento de pelo menos três litros de colostro de boa qualidade nas primeiras horas de vida, acompanhado posteriormente por uma nova alimentação.
Outra abordagem utilizada em algumas propriedades considera volumes próximos de quatro litros no primeiro fornecimento, especialmente entre animais de raças leiteiras de maior porte.
Mais importante do que aplicar uma quantidade fixa a todos os animais é estabelecer um protocolo baseado no peso, na condição do recém-nascido e na avaliação veterinária do rebanho.
Qualidade do colostro precisa ser medida

A aparência do colostro não permite determinar com segurança sua concentração de anticorpos.
Por esse motivo, propriedades tecnificadas utilizam o refratômetro de Brix como ferramenta de avaliação rápida. Publicações da Penn State Extension e da Universidade de Minnesota utilizam valores próximos ou superiores a 22% Brix como referência prática para identificar colostro considerado de boa qualidade.
Outra referência empregada na literatura veterinária é a concentração de imunoglobulina G. O Merck Veterinary Manual considera desejável que o produto destinado à primeira alimentação apresente concentração superior a 50 mg/mL de IgG.
Medir a qualidade permite direcionar os melhores lotes aos recém-nascidos e evita depender exclusivamente de avaliações visuais.
Higiene interfere no resultado da colostragem
Um protocolo eficiente também precisa controlar a contaminação durante a coleta e o armazenamento.
Baldes, mamadeiras, sondas e demais utensílios utilizados no manejo podem carregar microrganismos quando a higienização é inadequada. Dessa forma, o bezerro pode ser exposto a agentes infecciosos justamente em um momento de alta vulnerabilidade.
O cuidado deve começar na ordenha do colostro e continuar durante o armazenamento, descongelamento e fornecimento.
Manter um banco de colostro identificado e armazenado corretamente também aumenta a segurança da propriedade em situações nas quais a vaca não produz quantidade suficiente ou o produto apresenta baixa qualidade.
Diarreias e outras doenças podem encontrar espaço
Quando a transferência de anticorpos é insuficiente, o bezerro fica mais suscetível às infecções presentes no ambiente de criação.
Um estudo publicado em 2023 avaliando propriedades leiteiras encontrou associação entre falha de transferência passiva e maior ocorrência de doenças nos animais jovens, com destaque para episódios de diarreia.
Isso não significa que a colostragem seja o único fator responsável pelos problemas sanitários. Ambiente contaminado, manejo do umbigo, condições das instalações, nutrição e exposição a patógenos também influenciam o risco.
Porém, um animal que inicia a vida com proteção imunológica inadequada enfrenta esses desafios em condição mais desfavorável.
Como prevenir as falhas evitáveis na colostragem
Reduzir perdas exige transformar a colostragem em um procedimento controlado, e não em uma etapa deixada ao acaso.
Entre as práticas mais importantes estão:
- registrar o horário do nascimento;
- avaliar rapidamente a vitalidade do bezerro;
- acompanhar se houve ingestão adequada;
- medir a qualidade do colostro;
- manter utensílios higienizados;
- armazenar reservas de boa qualidade;
- estabelecer conduta específica para partos difíceis;
- acompanhar casos de doença e mortalidade no lote.
Quando o animal não consegue consumir sozinho o volume necessário, a equipe precisa seguir um protocolo previamente estabelecido com orientação veterinária.
Procedimentos como uso de sonda esofágica exigem treinamento, pois a execução incorreta pode provocar complicações.
Exames podem revelar problemas invisíveis no manejo
A eficiência da colostragem também pode ser avaliada depois do fornecimento.
Exames sanguíneos permitem estimar se ocorreu transferência adequada de imunidade passiva. Entre os parâmetros utilizados estão a concentração sérica de IgG e a proteína sérica total.
Segundo critérios apresentados pelo Merck Veterinary Manual, concentrações de IgG sérica iguais ou superiores a 25 mg/mL são classificadas como excelentes em bezerros leiteiros, enquanto valores abaixo de 10 mg/mL indicam transferência considerada ruim.
Avaliações periódicas ajudam a identificar se o problema está na qualidade do colostro, no horário de fornecimento, na quantidade ou na execução do protocolo pela equipe.
Manejo correto reduz riscos desde o nascimento
As falhas evitáveis na colostragem podem ser reduzidas quando a propriedade deixa de tratar o processo como uma simples mamada e passa a acompanhá-lo de maneira objetiva.
Controlar qualidade, ingestão e condição dos recém-nascidos permite detectar rapidamente animais vulneráveis e corrigir problemas antes que eles se transformem em surtos de doença ou aumento da mortalidade.
No manejo de bezerros, poucas horas podem determinar boa parte da proteção que o animal terá durante uma das fases mais delicadas de sua criação.
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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira
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