Segunda inseminação pode aumentar em até 10% o número de bezerros, aponta Asbia

Ressincronização oferece nova oportunidade às fêmeas que não emprenharam na primeira IATF, concentra as concepções e pode antecipar os partos; pesquisas mostram que o resultado depende do protocolo e das condições do rebanho

Uma segunda oportunidade de inseminação para as vacas que não ficaram gestantes na primeira tentativa pode ajudar a elevar a produção de bezerros na pecuária de corte. A estratégia, chamada de ressincronização, permite repetir a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) ainda dentro da mesma estação de monta.

Segundo estimativa apresentada por Fernando Furtado Velloso, diretor técnico da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), o uso da ressincronização pode resultar em 6% a 10% mais bezerros quando comparado ao sistema em que se realiza apenas uma IATF antes do repasse das matrizes com touros. O percentual, porém, depende das condições de cada rebanho e não representa uma garantia de desempenho.

Segunda inseminação aproveita vacas que ficaram vazias

A lógica da técnica começa no fato de que uma única IATF não resulta em gestação para todas as matrizes. As fêmeas que permanecem vazias podem então ser identificadas e submetidas a outro protocolo, reduzindo o tempo até uma nova possibilidade de concepção.

Há diferentes formas de organizar esse manejo. Em protocolos convencionais, o diagnóstico de gestação ocorre cerca de 30 dias depois da primeira inseminação. Estratégias mais precoces utilizam ultrassonografia Doppler para antecipar a identificação das fêmeas não gestantes.

Pesquisa da Embrapa Pecuária Sudeste, realizada com 245 fêmeas Nelore, avaliou uma modalidade superprecoce em que a segunda IATF ocorreu entre 22 e 24 dias após a primeira. Após os diagnósticos confirmatórios, o trabalho registrou 60% de prenhez acumulada, demonstrando a possibilidade de concentrar grande parte das concepções em poucas semanas.

A concentração das inseminações também amplia o uso da genética selecionada. A escolha do sêmen, no entanto, continua sendo decisiva para o resultado produtivo, como mostra a análise sobre como a escolha do touro na IATF influencia o próximo bezerro.

Estudos mostram avanço na taxa de prenhez

Os efeitos da ressincronização também aparecem em pesquisas realizadas em condições comerciais. Um estudo com 1.052 vacas Angus e Brangus, conduzido no Rio Grande do Sul e publicado na revista científica Theriogenology, comparou diferentes estratégias reprodutivas.

Nos grupos que receberam uma segunda inseminação, a taxa de prenhez ao fim da estação chegou a 81,5% e 83,7%, dependendo do momento da ressincronização. No grupo submetido a uma IATF seguida de monta natural, o índice ficou em 71%.

A diferença mostra que existe potencial para ampliar o número de matrizes gestantes, mas não significa que toda fazenda terá o mesmo desempenho. Nutrição, condição corporal, sanidade, qualidade do sêmen, execução do protocolo e período pós-parto interferem diretamente nos resultados.

Emprenhar cedo também pode melhorar o lote de bezerros

O benefício econômico da ressincronização não está apenas na quantidade de vacas gestantes. Concentrar as concepções no começo da estação também antecipa parte dos nascimentos.

Bezerros nascidos mais cedo acumulam mais dias de crescimento até uma data comum de desmama. Quando o manejo nutricional e sanitário acompanha esse calendário, a propriedade pode obter lotes mais uniformes e animais mais desenvolvidos.

Essa previsibilidade é uma das razões que impulsionaram a adoção da IATF no país. Dados recentes sobre a tecnologia e seu uso na pecuária brasileira podem ser consultados na análise sobre a expansão da IATF e seu custo dentro da produção de bezerros.

Mais protocolos não corrigem problemas de manejo

Repetir a inseminação sem identificar os motivos de um desempenho reprodutivo baixo pode apenas aumentar os custos da estação de monta.

Matrizes com condição corporal inadequada, deficiências nutricionais, doenças reprodutivas ou problemas no pós-parto podem responder abaixo do esperado mesmo quando submetidas a protocolos bem estruturados. O mesmo vale para falhas no armazenamento e descongelamento do sêmen ou na aplicação dos hormônios.

Há ainda custos adicionais com medicamentos, sêmen, diagnóstico de gestação e mão de obra. Por isso, a decisão deve considerar não apenas a taxa de prenhez, mas quanto cada gestação adicional custa e quantos bezerros efetivamente chegam ao nascimento e à desmama.

A ressincronização, portanto, funciona melhor como parte de um planejamento reprodutivo completo. Quando o rebanho está preparado e o protocolo é corretamente executado, a segunda inseminação pode aumentar as oportunidades de concepção, reduzir o tempo improdutivo das matrizes e concentrar a produção de bezerros dentro da estação.

O potencial de chegar a até 10% mais animais existe como referência apresentada pela Asbia, mas o resultado final continuará dependente das condições de cada propriedade. Para o pecuarista, o indicador mais relevante é transformar o ganho de eficiência reprodutiva em mais quilos de bezerro produzidos por matriz exposta.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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