White Park: raça bovina milenar ligada aos celtas corre risco de desaparecer

Queda no número de bezerros levou a raça britânica de pelagem branca e grandes chifres à categoria mais urgente da lista de conservação do Reino Unido

A raça bovina White Park, uma das linhagens pecuárias mais antigas das Ilhas Britânicas, passou à categoria “Priority” na lista 2026-2027 da Rare Breeds Survival Trust (RBST). A mudança ocorreu após o número de novos bezerros cair, em 2025, para menos de dois terços do patamar registrado em 2022, aprofundando a preocupação com a sobrevivência e a diversidade genética desse gado histórico.

A raça já apresentava sinais de retração. Dados divulgados pela RBST em 2025 mostraram uma queda de 16% nos registros realizados em 2024, na comparação com 2023, enquanto o número de matrizes que produziram descendentes registrados atingiu o menor nível desde 2003. Continue a leitura e acompanhe o Compre Rural, onde informação de qualidade ajuda a fortalecer quem vive e produz no campo.

Raça bovina White Park chega ao nível mais urgente da lista

A RBST divide as raças nativas britânicas entre “UK Native Breed”, “At Risk” e “Priority”. Esta última reúne as populações consideradas mais preocupantes por combinarem raridade, redução da diversidade genética e aumento da endogamia, que ocorre quando animais geneticamente próximos são utilizados repetidamente nos acasalamentos.

A classificação não se baseia apenas na quantidade total de cabeças. A entidade considera registros de machos e fêmeas, número de rebanhos, quantidade de touros e matrizes efetivamente utilizados na reprodução e o chamado tamanho efetivo da população. Esse indicador procura estimar quantos animais realmente contribuem geneticamente para as gerações seguintes.

Uma população pode, portanto, reunir centenas de exemplares e ainda apresentar vulnerabilidade se poucos reprodutores concentrarem grande parte dos acasalamentos. A RBST considera 50 animais como um limiar de atenção para o tamanho efetivo, com base em referência atribuída à Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO).

A White Park foi uma das quatro populações transferidas para a categoria prioritária na edição 2026-2027. Também entraram nesse grupo a população original do gado Lincoln Red e as raças ovinas Boreray e Soay.

Pelagem branca, extremidades escuras e grandes chifres

White Park: raça bovina milenar ligada aos celtas corre risco de desaparecer
Foto: Gareth James/Geograph – Wikimedia Commons — CC BY-SA 2.0

A aparência é um dos traços mais reconhecíveis da White Park. Os animais apresentam pelagem predominantemente branca, com pigmentação preta — ocasionalmente vermelha — ao redor das orelhas, focinho, olhos e pés. As vacas possuem chifres longos e curvados, frequentemente com formato semelhante a uma lira; nos touros, eles tendem a ser mais grossos e curtos.

A própria RBST considera a White Park provavelmente a raça bovina nativa mais antiga das Ilhas Britânicas. Há registros de rebanhos com essas características no País de Gales no século IX e na Escócia e no norte da Inglaterra no século XIII.

A associação com povos celtas, porém, deve ser entendida como uma reconstrução histórica. A hipótese é que ancestrais desses bovinos tenham acompanhado comunidades celtas deslocadas para o norte e o oeste da Grã-Bretanha durante a expansão romana, há cerca de 2 mil anos. As fontes consultadas não apresentam uma análise genética conclusiva que comprove essa ligação direta.

O caso integra um conjunto mais amplo de raças bovinas raras e exóticas mantidas em diferentes países, muitas delas preservadas por pequenos grupos de criadores.

Winston Churchill e a operação para preservar a raça

Durante a Segunda Guerra Mundial, parte do rebanho foi enviada da Grã-Bretanha para a América do Norte como proteção diante do risco de invasão e perda dos animais. A RBST confirma a transferência, enquanto reportagem publicada pelo The Guardian atribui a iniciativa de preservação a Winston Churchill.

O episódio ajudou a formar núcleos fora do território britânico e reduziu o risco de que uma guerra, doença ou outro evento localizado eliminasse toda a população. A dispersão geográfica de rebanhos é uma das estratégias utilizadas na conservação de raças pequenas, ao lado do controle genealógico, da escolha de acasalamentos e do armazenamento de sêmen e embriões.

No Brasil, iniciativas semelhantes procuram proteger raças localmente adaptadas. O trabalho de conservação e registro genealógico do Bovino Pantaneiro reúne criadores, associação e unidades da Embrapa. Já o programa dedicado à preservação genética da raça Crioula Lageana inclui seleção de touros e criopreservação de material genético.

Rusticidade favorece criação a pasto e pastejo de conservação

Historicamente, a White Park foi utilizada para carne, leite e tração. Atualmente, sua principal finalidade produtiva é a carne bovina, valorizada pelo marmoreio, enquanto a rusticidade permite o aproveitamento de pastagens mais grosseiras e sistemas com menor dependência de concentrados.

Segundo o perfil técnico da RBST, os animais podem atingir acabamento para abate em até 30 meses quando mantidos em boas condições de pastagem. Isso não significa que apresentem o mesmo desempenho de raças comerciais selecionadas intensivamente para ganho de peso, mas indica potencial para sistemas extensivos, produtos diferenciados e mercados que remunerem origem, qualidade e conservação.

Outra aplicação é o pastejo de conservação. Nesse manejo, bovinos rústicos controlam gramíneas, arbustos e outras plantas que poderiam dominar determinadas áreas, contribuindo para manter ambientes abertos e criar condições para diferentes espécies. A White Park consegue utilizar forragens de menor qualidade e terrenos que nem sempre são adequados a sistemas pecuários intensivos.

Baixo retorno econômico ameaça continuidade dos rebanhos

A rusticidade, o valor histórico e a qualidade da carne não garantem a sobrevivência de uma raça. Criadores precisam arcar com registros genealógicos, planejamento dos acasalamentos, movimentação de reprodutores e menor escala de comercialização.

Em cadeias nas quais o pagamento depende principalmente do peso e da padronização da carcaça, raças raras encontram dificuldade para competir com bovinos comerciais de maior porte ou crescimento mais rápido. Sem remuneração adicional pela carne diferenciada, pelos serviços ambientais ou pela conservação genética, manter esses rebanhos pode deixar de ser economicamente viável.

Esse é o ponto central do alerta da RBST: conservar uma raça doméstica exige que existam criadores, mercado e animais suficientes participando da reprodução. Manter poucos exemplares apenas como atração histórica não resolve o problema se a base genética continuar estreita.

A White Park não possui participação relevante na pecuária comercial brasileira, de modo que sua retração não deve afetar diretamente a oferta mundial de carne. O caso, entretanto, interessa ao produtor porque demonstra como características formadas durante séculos — rusticidade, eficiência em pastagens marginais e adaptação a ambientes específicos — podem ser perdidas quando a seleção se concentra em poucas linhagens.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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