No podcast Agro em Debate, Raquel Amaral explica como a integração entre lavoura e pecuária pode ampliar o aproveitamento das fazendas e destaca os desafios de transformar potencial produtivo em resultado.
Depois da colheita dos grãos, a fazenda ainda pode ter espaço para produzir mais. No Oeste Baiano, conhecido pelas grandes lavouras de soja, milho e algodão, a integração com a bovinocultura abre uma possibilidade que desperta o interesse dos produtores: transformar o gado em uma espécie de “terceira safra” dentro da propriedade.
A estratégia foi um dos destaques da participação da médica veterinária Raquel Amaral no episódio 128 do podcast Agro em Debate, gravado em edição especial na Bahia Farm Show. Nascida em Luís Eduardo Magalhães, ela acompanha as oportunidades de uma pecuária que encontra na força agrícola regional uma base para desenvolver a recria e o confinamento.
Durante a entrevista, Raquel também falou sobre sua trajetória profissional, a importância da experiência prática na formação de veterinários e os desafios de conquistar espaço como mulher em ambientes de trabalho predominantemente masculinos.
Sua avaliação conecta esses temas a uma necessidade comum dentro das propriedades: organizar pessoas, alimentação, sanidade e processos para que o potencial da atividade se traduza em resultado.

Como o gado pode virar uma “terceira safra”
A expressão “terceira safra” ajuda a explicar uma estratégia de aproveitamento da propriedade: utilizar uma janela do calendário agrícola para produzir forragem e gerar receita com o ganho de peso dos animais.
Raquel destaca a utilização de plantas como braquiária, sorgo e milheto em sistemas que aproximam a produção de grãos da bovinocultura. Com planejamento, a área passa a atender diferentes finalidades ao longo do ciclo produtivo.
O produtor pode colher grãos e, em outro momento, aproveitar a forragem para alimentar o rebanho, respeitando as condições de cada fazenda e a programação da cultura seguinte.
Na conversa, a veterinária ressalta que essa integração também permite olhar para a propriedade como um sistema. A pastagem, os animais e a lavoura deixam de ser atividades tratadas isoladamente e passam a fazer parte de uma mesma estratégia de produção.
A cobertura vegetal e a ciclagem de nutrientes estão entre os benefícios possíveis. Para alcançá-los, porém, o manejo precisa considerar fatores como a quantidade de animais por área, a disponibilidade de alimento e as condições do solo.
A oportunidade de receita adicional também exige uma conta própria. Compra dos bovinos, suplementação, estrutura, mão de obra e preço de venda influenciam o resultado. A terceira safra representa uma alternativa de diversificação cuja viabilidade precisa ser avaliada dentro da realidade de cada propriedade.

A força dos grãos também pode alimentar a pecuária
Um dos pontos destacados por Raquel é a conexão entre a produção agrícola do Oeste Baiano e a disponibilidade de ingredientes para a alimentação dos bovinos.
Ela cita caroço e torta de algodão, farelo de soja, DDG de milho, silagens e feno entre as opções que podem integrar as estratégias nutricionais dos rebanhos.
Essa variedade permite avaliar diferentes combinações conforme a categoria animal, a fase de produção, a oferta dos ingredientes e seus custos. A escolha depende da formulação técnica da dieta e dos objetivos do sistema.
Na avaliação da veterinária, a proximidade dos alimentos é uma vantagem que precisa entrar no planejamento. Em determinadas situações, transportar o animal para perto de onde existe comida pode ser economicamente mais interessante do que levar alimentos volumosos por longas distâncias.
O raciocínio coloca a logística no centro da decisão. O preço de um ingrediente, sozinho, não revela quanto ele efetivamente custará quando chegar ao cocho.
A conexão entre lavouras, processamento industrial e alimentação animal ajuda a compreender por que a região oferece oportunidades para sistemas de recria e terminação.
“A pecuária brasileira vai explodir”
Apesar das oportunidades, Raquel chama a atenção para um ponto que considera decisivo: a organização da rotina dentro das fazendas. “Processos bem estabelecidos é o que vai levar a gente a um sucesso… quando a gente começar a aplicar isso dentro da pecuária, a pecuária brasileira vai explodir” – exclamou ela.
A declaração resume sua defesa de uma atividade com procedimentos claros, equipes preparadas e acompanhamento dos resultados.
Na prática, isso envolve definir responsabilidades, orientar os manejos e estabelecer critérios para observar os animais e identificar problemas. Também exige que as informações produzidas no campo sejam utilizadas nas decisões.
Uma orientação técnica precisa chegar à rotina da equipe para produzir o efeito esperado. Por isso, treinamento e comunicação têm espaço importante na visão da profissional.
Essa abordagem amplia a discussão sobre produtividade: além de genética e alimentação, o desempenho do rebanho depende da maneira como o trabalho é executado todos os dias.
O veterinário passou a participar das decisões da fazenda
Durante a entrevista, Raquel destaca um perfil profissional que vai além dos atendimentos emergenciais e dos procedimentos pontuais.
O médico veterinário participa da prevenção de doenças, da elaboração de protocolos sanitários, do manejo nutricional, da reprodução e da capacitação de quem trabalha diretamente com os animais.
Sua experiência inclui a gestão de uma propriedade de cria em Formosa do Rio Preto, com cerca de 600 matrizes Nelore e meio-sangue Angus, além da atuação com recria a pasto e confinamento.
Essas vivências exigiram atenção a diferentes etapas da produção, desde a alimentação e o manejo reprodutivo até o acompanhamento das informações do rebanho.
O trabalho técnico começa antes de o problema aparecer. Organizar a entrada de animais, estabelecer protocolos e orientar a observação diária são exemplos de decisões que fazem parte dessa atuação.
O desafio, conforme a perspectiva apresentada na conversa, é construir uma rotina na qual prevenção, manejo e gestão caminhem juntos.
A vocação começou nas férias em uma fazenda de leite
Embora tenha nascido e crescido em Luís Eduardo Magalhães, Raquel construiu parte de sua ligação com o campo durante as visitas à família em Santa Catarina.
Nas férias escolares, acompanhava a rotina da pecuária leiteira dos tios. Ordenhas, inseminações e atendimentos veterinários despertaram seu interesse pelos bovinos ainda na infância. “Desde os meus dois anos eu falo que eu quero ser médica veterinária, eu acredito que vem muito disso, dessa vivência desde a infância” – disse Raquel.
A escolha profissional levou Raquel ao curso de Medicina Veterinária da Universidade Federal do Oeste da Bahia, no campus de Barra.
Desde o início da graduação, ela buscou estágios em fazendas, com atenção à reprodução e à inseminação artificial. A experiência prática ajudou a aproximar o conteúdo acadêmico das situações encontradas no campo.
Para a veterinária, essa vivência também contribui para desenvolver agilidade nas decisões, aprender a lidar com imprevistos e construir relacionamentos profissionais. Em seu caso, o estágio no fim do curso abriu caminho para a primeira contratação.
Como conquistar confiança na equipe do curral
A trajetória também foi marcada pelo desafio de assumir responsabilidades sendo jovem e mulher em um ambiente predominantemente masculino.
Raquel relata que enfrentou desconfianças e precisou construir sua autoridade profissional no convívio diário. Sua estratégia passou por ouvir os trabalhadores, reconhecer a experiência prática da equipe e explicar os motivos das orientações técnicas.
“A minha conduta naquele momento sempre foi de tentar acolher, dar voz para eles, perguntar: ‘o que que vocês acham?’”
Essa postura permitiu criar espaço para o diálogo. Ao apresentar uma mudança de manejo, ela buscava esclarecer por que considerava aquela alternativa mais adequada.
A confiança foi construída com conhecimento, presença e disposição para conversar. O relato mostra como a liderança no campo também depende da capacidade de transformar orientações em um trabalho compreendido pela equipe.
Das fazendas para as redes sociais
A rotina profissional passou a fazer parte dos conteúdos que Raquel compartilha nas redes sociais. Na entrevista, ela aborda o uso dessas plataformas para mostrar o trabalho com bovinos e aproximar o público da realidade da pecuária.
A comunicação, em sua avaliação, exige responsabilidade com as informações técnicas. Mostrar o campo envolve explicar o que acontece na atividade e oferecer contexto para quem acompanha o conteúdo.
Raquel também incentiva profissionais a começar a compartilhar conhecimento sem esperar condições perfeitas de gravação ou produção.
“Não espera o momento ideal que não existe momento ideal, não existe o local ideal…”
Entre o curral, a gestão e a comunicação, sua trajetória acompanha os temas discutidos no episódio: uma pecuária que busca aproveitar melhor os recursos disponíveis e profissionais preparados para conduzir esse processo.
No Oeste Baiano, o gado como “terceira safra” é uma das possibilidades apresentadas nessa transformação. Para Raquel, aproveitar a oportunidade passa por planejamento técnico, processos bem definidos e valorização de quem executa o trabalho dentro das fazendas.
Confira a entrevista completa com Raquel Amaral no episódio 128 do podcast Agro em Debate, gravado em edição especial na Bahia Farm Show.
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