Oferta restrita de animais terminados sustenta a arroba mesmo com consumo doméstico mais fraco; escalas seguem apertadas e contratos futuros mantêm prêmio sobre o mercado físico
O mercado do boi gordo começa a semana mostrando resistência nos preços e negócios acima das referências médias, especialmente em São Paulo. Mesmo diante de um consumo doméstico ainda pouco aquecido, a disponibilidade limitada de animais terminados continua dando sustentação às cotações e dificultando movimentos mais fortes de baixa.
Na praça paulista, a Agrifatto apurou R$ 360 por arroba, a prazo, para o boi gordo com ou sem padrão de exportação. Já levantamento apresentado por Safras & Mercado aponta referência média de R$ 355,33/@ em São Paulo, mas registra negociações acima desse patamar. A diferença entre as referências reforça um mercado bastante dependente da necessidade de compra de cada indústria.
Oferta curta continua dando força ao boi
O principal ponto de sustentação permanece do lado da oferta. Segundo a Agrifatto, a média das outras 16 regiões acompanhadas ficou em R$ 346,50/@, enquanto as escalas de abate dos frigoríficos permaneceram ao redor de seis dias úteis.
As indústrias maiores seguem em posição relativamente mais confortável por conta de animais de parceria e dos confinamentos próprios. Já frigoríficos menores, com programações mais curtas, encontram maior dificuldade para completar as escalas e, em alguns casos, precisam melhorar as ofertas para atrair novas boiadas.
A Safras & Mercado também observa essa diferença entre os compradores. De acordo com o analista Fernando Henrique Iglesias, frigoríficos de menor porte enfrentam uma posição menos confortável nas escalas, enquanto empresas maiores contam com maior presença de animais de parceria e confinamentos próprios.
Nas principais praças acompanhadas pela Safras & Mercado, as referências ficaram em R$ 355,33/@ em São Paulo; R$ 344,64/@ em Goiás; R$ 340,88/@ em Minas Gerais; R$ 348,84/@ em Mato Grosso do Sul; e R$ 332,76/@ em Mato Grosso.
Pecuarista segura a boiada
Outro elemento importante é a postura do produtor. Segundo a Agrifatto, pecuaristas ajustaram as vendas às necessidades de caixa e mostraram resistência às ofertas abaixo das referências.
Esse comportamento ganha peso justamente porque a indústria não dispõe de escalas suficientemente longas para pressionar de maneira generalizada as cotações. Enquanto houver dificuldade para encontrar lotes terminados em determinadas regiões, a disputa por boiadas tende a limitar o espaço para quedas mais expressivas.
Por outro lado, o mercado ainda encontra uma barreira importante no consumo. No atacado, Safras & Mercado aponta preços acomodados e pouco espaço para novos reajustes no curto prazo, especialmente diante da concorrência de proteínas mais baratas. O quarto traseiro aparece em R$ 27,50/kg, o dianteiro em R$ 20,50/kg e a ponta de agulha em R$ 19/kg.
B3 acima de R$ 380/@ aumenta expectativa
“O mercado está mostrando uma força impressionante. Nesta segunda-feira, o contrato de dezembro rompeu os R$ 390 por arroba e colocou os R$ 400 definitivamente no radar. Para o pecuarista, é um movimento que chama muita atenção, principalmente porque acontece em um cenário de oferta mais ajustada de animais terminados. Ainda não dá para cravar os R$ 400, mas o mercado está acelerando e cada vez mais próximo desse patamar. Agora é acompanhar se o físico vai conseguir absorver parte dessa valorização e até onde a indústria terá espaço para avançar nas compras”, avalia Lorenzo Junqueira, pecuarista e colunista do Compre Rural.
Se o mercado físico mostra firmeza, o futuro apresenta um cenário ainda mais valorizado. Segundo a Agrifatto, os contratos com vencimento no quarto trimestre negociados na B3 permanecem acima de R$ 380/@, portanto com prêmio relevante sobre os preços encontrados atualmente no balcão.
A leitura da consultoria é que esse prêmio reflete a expectativa de menor disponibilidade de animais terminados e fortalecimento da demanda nos últimos meses do ano. Isso, porém, não significa que toda a valorização indicada pela curva futura necessariamente chegará ao mercado físico.
Para que essa sinalização se confirme, será necessário observar negócios efetivos em volumes relevantes nos patamares mais altos, além da continuidade da oferta restrita e da necessidade das indústrias de recompor suas escalas.
Cota do Uruguai pode entrar no radar, mas decisão final é da China
Outro fator que ganhou espaço nas discussões do mercado foi o anúncio de que o Uruguai teria cedido ao Brasil parte de sua cota de exportação de carne bovina para a China. A possibilidade é relevante porque surge justamente em um momento de atenção redobrada sobre os embarques brasileiros e sobre a disponibilidade de carne para exportação.
Apesar da sinalização positiva entre Brasil e Uruguai, ainda existe uma etapa decisiva. Em conversa com o Compre Rural, o analista da Safras & Mercado, Fernando Henrique Iglesias, ressaltou que a transferência não depende apenas dos dois países sul-americanos.
“Por mais que haja aceitação do Uruguai, a decisão final cabe à China. A gestão da cota é 100% de responsabilidade das autoridades chinesas. Vale o histórico de que o Brasil já tentou flexibilização anteriormente e a resposta foi negativa”, afirma Fernando Henrique Iglesias, analista da Safras & Mercado.
Portanto, a eventual parcela cedida pelo Uruguai ainda não deve ser tratada como volume adicional garantido ao Brasil. Caso Pequim autorize a mudança, porém, o tema pode ganhar importância para a cadeia da carne bovina e acrescentar mais um elemento às negociações do boi gordo, especialmente diante da forte dependência brasileira do mercado chinês.
O que observar daqui para frente
O começo da semana deixa, portanto, uma combinação interessante para o pecuarista: boi chegando a R$ 360/@ no físico paulista, escalas relativamente curtas e contratos futuros acima de R$ 380/@.
O consumo doméstico ainda funciona como limitador para uma arrancada mais intensa, mas, neste momento, a oferta de animais terminados impede que esse fator se traduza automaticamente em pressão significativa sobre a arroba.
Para os próximos dias, o comportamento das escalas será decisivo. Se os frigoríficos encontrarem dificuldade para avançar suas programações e o produtor continuar dosando as vendas, negociações acima das referências podem continuar aparecendo nas praças mais disputadas.
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