Boi precisa ter “data de validade”, concorda?

Boi precisa ter “data de validade”, concorda?

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Foto Divulgação

É preciso que o pecuarista faça um mudança de mentalidade para encurtar o ciclo do boi dentro da porteira e dê o acabamento necessário no prazo estabelecido.

Em entrevista com o doutor em zootecnia Gustavo Rezende Siqueira, pesquisador da Apta, a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, vinculada à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, fala sobre o assunto e traz excelentes dicas. Confira!

O especialista celebrou que, ao passo que os mercados tanto interno quanto externo aumentam suas exigências sobre a carne bovina brasileira, o setor produtivo responde. “A gente tem visto ainda mais, cientificamente falando, uma grande evolução principalmente no Brasil começando a falar muito mais da cria, das fêmeas e falar um pouco mais de macho no que diz respeito a confinamento, eficiência, melhoria de uso de insumos”, elencou o pesquisador entre as principais evoluções.

Gustavo citou a crescente demanda da China, em destaque no final de 2019, como um dos fatores catalisadores para a transformação. “A gente sempre falou que o acabamento é muito importante, a idade dos animais também muito importante, e a pesquisa, juntando com o mercado no ano passado, o que a gente viu? Agora que a gente tem um cliente forte, a China, exigindo idade, com isso abater animais jovens se tornou cada vez mais importante. E isto é mais complexo do que necessariamente colocar um pouco mais de acabamento, você tem que mudar todo o sistema de produção. Então são cenários: eficiência da cria, encurtar a recria, que é o que já vem sendo feito, e eficiência na terminação”, resumiu.

O doutor em zootecnia lançou os principais fatores que podem fazer o produtor aproveitar o potencial da pecuária tropical brasileira para produzir a arroba de baixo custo e alto lucro.

“A primeira coisa que a gente tem que pensar é que se você está na pecuária a pasto, que é pasto o ano inteiro e você não vai fazer confinamento ou coisa deste tipo, 80% ou mais da sua meta de ganho de peso são feitos nesta época (nas chuvas). Então é fundamental para o lucro da fazenda. A arroba produzida na seca a pasto vai ser cara, ela é muito mais cara do que a das águas, então agora é a hora de aproveitar muito o potencial do pasto. Você tem que manejar bem seu pasto, tem que olhar pro seu pasto como uma cultura, manejar ele, pensar na entrada, saída, ajuste de lotação, […] Se faça de boi, vá até o pasto e tente colher o pasto que você está oferecendo pro seu boi e veja se aquilo está fácil ou difícil de ele consumir. […] Aí a gente usa estratégia das águas potencializando o ganho. Se o animal já está ganhando peso com pasto, […] aí eu vou entrar com suplementação adicional”, revelou.

suplementação das águas, conforme ensinou o pesquisador, é variável conforme os objetivos de cada pecuarista. Ele pode intensificar para abater antes da entressafra ou preparar os animais para uma futura entrada em confinamento, e também varia se precisar estar preparado para terminação no primeiro ou segundo ciclo. Siqueira indicou que o produtor ofereça suplementação aditivada de consumo de 100 a 120 gramas com outros elementos, como nitrogênio e farelo, para estimular consumo, o que pode fazer com o animal tenha até 120 g de ganho diário adicional com custo reduzido.

“Muitas vezes a gente até acelera o animal um pouco mais agora pra abater em abril ou maio, aproveitar o potencial de produção de pasto, fazer um boi com uma arroba de baixo custo, ou seja, de alto lucro. Não é só baixo custo, é alto lucro! E aliviar a fazenda pra ela passar bem a seca. […] Se eu vou terminar um boi, eu tenho que tratar um pouco mais desse animal. […] No Brasil, em que a gente tem a maior parte dos animais abatidos inteiros, se a gente não tratar, não dá o mínimo do mínimo de acabamento. É um produto ruim, que a gente não quer colocar no mercado”, advertiu.

Gustavo comparou o mineral aditivado com o tempero da comida. “Sem mineral, você não aproveita o máximo dos ingredientes que são bons. […] Às vezes você vai em um restaurante em que a comida é muito mais simples, mas o tempero é muito melhor. Você fica muito mais satisfeito, usa muito melhor aqueles nutrientes, aquela matéria prima que foi dada. Então eu digo que um suplemento de águas é o tempero de uma boa comida”, frisou.

O pesquisador aconselhou que o pecuarista faça um mudança de mentalidade para encurtar o ciclo do boi dentro da porteira e dê o acabamento necessário no prazo estabelecido, ou seja, com o animal ainda jovem para que tenha qualidade de carne. “Em vez de botar carimbo de mês de nascimento no gado, põe um carimbo da data de abate nele, […] É a data de validade do boi”, descontraiu.

O pesquisador da Apta comentou ainda as pesquisas direcionadas à nutrição de fêmeas para desafiar as “precocinhas” à reprodução aos 14 meses. “A gente acredita que a fêmea é a categoria que nós mais vamos evoluir nutricionalmente nos próximos anos […] A gente deixou a fêmea muito pra trás”, lamentou Siqueira. O zootecnista ressaltou que o criador de fêmeas tem que ter dois grandes targets, ou alvos, para melhorar sua eficiência: emprenhar as novilhas com 14 a 15 meses e fazer isto de modo que ela possa parir bem perto dos seus dois anos de idade e possa reconceber. Dando as condições ideais para estas fêmeas, o pecuarista ou terá uma matriz de ótima qualidade ou, no caso de ela não superar o desafio da reprodução, poderá ser destinada com alto valor agregado a programas de qualidade de carne.

Antes de encerrar sua entrevista, Gustavo aproveitou para fazer convite para dois eventos importantes no calendário de 2020 da Apta. O primeiro deles é o Configem, Conferência sobre Silagem para Gado de Corte nos dias 7 e 8 de julho em São José do Rio Preto-SP. O encontro vai tratar do uso de silagem dentro dos sistemas de produção, na suplementação de vacassequestro de bezerros e ainda diferentes usos dos grãos na silagem para aproveitar todo o potencial nutritivo. A programação do evento está disponível pelo site do Configem.

Já no dia 19 de agosto acontecerá na própria sede da Apta, polo regional da Alta Mogiana, em SP, no município de Colina, a terceira edição do Beefday, um dia de campo bienal que conta com palestras e discussões técnicas sobre alternativas capazes de aumentar a produtividade da pecuária em diferentes sistemas. A programação e as inscrições estarão disponível em breve pelo site do evento, e pelo próprio portal da Apta.

Compre Rural com informações do Giro do Boi

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