Obra estratégica fortalece a logística rumo ao Pacífico e impulsiona a valorização das terras agrícolas na principal fronteira produtiva do país
Antes visto apenas como uma alternativa para produtores em busca de terras mais baratas, o leste da Bolívia pode estar prestes a ganhar um novo protagonismo no agronegócio sul-americano. O avanço de um corredor rodoviário ligando o departamento boliviano de Santa Cruz ao estado de Mato Grosso promete reduzir custos logísticos, facilitar o escoamento da produção e aumentar ainda mais o interesse de investidores brasileiros pelas fazendas do país vizinho.
A nova ligação entre Brasil e Bolívia integra um projeto estratégico de infraestrutura voltado à consolidação de um corredor bioceânico, aproximando a produção agrícola dos portos do Pacífico e ampliando a competitividade das exportações destinadas principalmente ao mercado asiático.
Corredor pode mudar a logística do agro
Os governos de Brasil e Bolívia avançaram nesta semana na formalização dos estudos para implantação da rodovia que ligará San Ignacio de Velasco à comunidade de Marfil, na fronteira com Vila Bela da Santíssima Trindade (MT).
O trecho boliviano possui aproximadamente 129 quilômetros e hoje é composto, em grande parte, por estrada de terra, o que limita o tráfego durante períodos chuvosos. No lado brasileiro, o Governo de Mato Grosso já executa a pavimentação da MT-199, aproximando a malha rodoviária da divisa internacional.
A expectativa do setor produtivo é que a nova conexão reduza significativamente o tempo de transporte entre os dois países, fortalecendo o comércio bilateral e abrindo uma nova alternativa logística para o agronegócio brasileiro.
Investidores brasileiros aceleram busca por fazendas na Bolívia
O avanço da infraestrutura acontece justamente quando cresce o interesse de produtores brasileiros pelo país vizinho.
Nos últimos dias, o Grupo Maggi anunciou a aquisição de uma fazenda de aproximadamente 30 mil hectares na região de Concepción, no departamento de Santa Cruz. A operação reacendeu o debate sobre o potencial agrícola boliviano e impulsionou uma nova onda de consultas de investidores interessados em expandir suas operações para além da fronteira brasileira.
Como mostrou recentemente o Compre Rural, produtores enxergam na Bolívia uma combinação difícil de encontrar atualmente no Brasil:
- terras agricultáveis com preços mais competitivos;
- disponibilidade de grandes áreas contínuas;
- custos de produção considerados menores em diversas regiões;
- proximidade com Mato Grosso, principal polo produtor de grãos do país.
A melhoria da infraestrutura tende a reforçar ainda mais essa tendência.
Logística sempre foi o principal gargalo
Apesar do potencial agrícola, um dos maiores obstáculos para quem produz na Bolívia sempre foi a logística.
Em muitas regiões produtoras do departamento de Santa Cruz, estradas precárias elevam o custo do frete e dificultam o acesso aos mercados consumidores.
Com a implantação do corredor rodoviário, especialistas avaliam que parte dessa desvantagem poderá ser reduzida, tornando a região ainda mais atrativa para novos investimentos brasileiros.
Além de facilitar o transporte para Mato Grosso, o projeto faz parte da estratégia de integração sul-americana voltada ao Corredor Bioceânico, que busca conectar a produção agrícola do Centro-Oeste brasileiro aos portos do Chile e do Peru, diminuindo distâncias até os compradores asiáticos.
O “novo Mato Grosso”?
A combinação entre terras disponíveis, expansão agrícola e melhorias na infraestrutura tem levado muitos analistas a comparar o atual momento da Bolívia com o Mato Grosso de décadas atrás, quando o estado brasileiro iniciou sua transformação em uma das maiores fronteiras agrícolas do mundo.
Empresários do setor avaliam que, caso os investimentos em logística avancem conforme o previsto, a região de Santa Cruz poderá viver um ciclo acelerado de valorização das terras e expansão da produção de soja, milho e pecuária.
Para produtores brasileiros que já acompanham oportunidades além da fronteira, o corredor rodoviário representa mais do que uma obra de infraestrutura: pode ser o fator que consolide a Bolívia como uma das principais novas fronteiras de expansão do agronegócio sul-americano.