Após anos de trabalho dos criadores e da criação da ABCBoran, raça africana avança para integrar oficialmente o registro genealógico da ABCZ, consolidando sua chegada à pecuária brasileira
A raça Boran está prestes a escrever um novo capítulo na história da pecuária brasileira. Após anos de trabalho conduzido por criadores que apostaram na introdução da genética africana no país e na criação da Associação Brasileira dos Criadores de Boran (ABCBoran), a raça deve se tornar a mais nova integrante do sistema de registro genealógico da Associação Brasileira dos Criadores de Zebu (ABCZ). O avanço representa um marco para a consolidação do Boran no Brasil e abre caminho para sua expansão comercial e genética.
O tema foi discutido nesta segunda-feira (27), durante reunião realizada na sede da ABCZ, em Uberaba (MG), que reuniu dirigentes da entidade, representantes da ABCBoran, técnicos, consultores e criadores da raça. A iniciativa atende a uma solicitação do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e avança na regulamentação necessária para que a ABCZ passe a emitir os registros oficiais dos animais.
O encontro contou com a presença do presidente da ABCZ, Arnaldo Manuel de Souza Machado Borges, do presidente do Conselho Deliberativo Técnico (CDT), Célio Arantes Heim, do superintendente técnico Luiz Antonio Josahkian e demais integrantes da equipe técnica da entidade. Pela ABCBoran participaram o presidente André Rodini, além de criadores e especialistas envolvidos no desenvolvimento da raça no Brasil.

Segundo André Rodini, fundador e presidente da ABCBoran, a aprovação pelo Conselho das Raças representa uma conquista histórica para todos os envolvidos na introdução do Boran no país.
“Estivemos na ABCZ para definir os critérios técnicos da raça, que foram ajustados em conjunto com a comissão responsável. Ficou estabelecido aquilo que será aceitável, permissível e proibido dentro do padrão racial. Com isso, teremos uma base sólida para os julgamentos e para o registro genealógico”, explicou.
De acordo com Rodini, nesta primeira etapa a ABCZ fará exclusivamente o registro dos animais Puros de Origem (P.O.) nascidos no Brasil a partir de embriões importados. “Todos os registros serão de animais P.O. Apenas os embriões de animais puros, nascidos em território nacional, poderão ser registrados neste momento” – destacou o pecuarista.
Associação promocional e registros oficiais
Com a oficialização do processo, a ABCBoran continuará exercendo seu papel de associação promocional da raça, atuando na divulgação, incentivo à criação e fortalecimento do Boran no Brasil. Já a responsabilidade pelos registros genealógicos ficará sob a tutela da ABCZ, seguindo o modelo adotado para as demais raças zebuínas reconhecidas no país.
Para o presidente da ABCZ, Arnaldo Manuel, o registro genealógico representa o principal instrumento para garantir o crescimento organizado de uma nova raça.
“O registro genealógico é o alicerce para a instalação e evolução de qualquer raça no Brasil. Unindo forças à ABCBoran, estamos trabalhando para que esta raça cresça e contribua para o desenvolvimento da nossa pecuária.”
Raça africana reúne características valorizadas na pecuária tropical
Originária do leste africano e tradicionalmente utilizada na produção de carne, a raça Boran vem despertando interesse de pecuaristas brasileiros por reunir atributos como rusticidade, fertilidade, precocidade, habilidade materna e elevada adaptação aos sistemas de produção em clima tropical.

A consolidação do Boran no Brasil já deixou de ser apenas uma expectativa para se tornar realidade. Os primeiros bezerros puros da raça nasceram recentemente em fazendas brasileiras, resultado de um trabalho iniciado há mais de duas décadas por criadores que enfrentaram barreiras sanitárias, longas negociações internacionais e elevados investimentos para trazer essa genética ao país. Os animais são oriundos de embriões importados do Paraguai — após a abertura de um protocolo específico de importação — e nasceram com excelente vitalidade, chamando a atenção dos criadores pela rusticidade e desenvolvimento logo nos primeiros dias de vida.
Considerado um marco histórico para a pecuária nacional, o nascimento desses exemplares representa o início efetivo da formação do plantel brasileiro da raça Boran, que agora passa a dar um passo decisivo rumo à consolidação com o processo de registro genealógico na ABCZ. A expectativa é que essa nova genética amplie as alternativas para os pecuaristas, especialmente em programas de cruzamento industrial e de seleção voltados à produção de carne em sistemas tropicais, aproveitando atributos como fertilidade, habilidade materna, resistência ao calor, eficiência alimentar e longevidade produtiva.
Para o consultor de melhoramento genético da ABCBoran, Guilherme Costa, o encontro na ABCZ permitiu consolidar os aspectos técnicos necessários para o reconhecimento oficial da raça.
“Tratamos do padrão racial e dos procedimentos que deverão ser adotados. O Boran tem potencial para contribuir com a pecuária nacional, especialmente por ampliar as possibilidades de heterose entre as raças zebuínas.”

Criadores apostam no potencial da raça
Entre os pioneiros está o produtor Godofredo Gonçalves Filho, de Formosa (GO), responsável pela importação de parte do material genético que deu origem aos primeiros exemplares brasileiros. “Os primeiros animais nasceram há poucas semanas e temos muito orgulho de participar desse processo. A estrutura e a capacidade técnica da ABCZ serão fundamentais para fortalecer e difundir a raça no Brasil” – disse o criador.
Godofredo destaca ainda que a entrada do Boran na maior associação de criadores de bovinos do mundo representa um salto importante para sua expansão. “É extremamente positivo. Estar dentro da ABCZ abre caminhos, fortalece o melhoramento genético e permite agregar ainda mais valor à pecuária nacional ao lado das demais raças zebuínas.”
Outro entusiasta da nova raça é Guilherme Gervásio, selecionador com duas décadas de experiência no Nelore e dez anos dedicados ao Sindi, que agora investe no Boran.
“É uma raça consolidada na África e que chegou ao Paraguai há cerca de 15 anos. De lá trouxemos os melhores exemplares para o Brasil. Com a capacidade técnica e o alcance da ABCZ, acreditamos que o Boran terá grande expansão no território nacional.”
Segundo o superintendente técnico da ABCZ, Luiz Antonio Josahkian, a inclusão da raça já foi aprovada pelo Conselho Deliberativo Técnico, restando a definição formal do padrão racial — etapa considerada essencial para o início dos registros. “A comissão técnica validou o padrão racial durante a reunião, permitindo que o processo avance para as próximas fases ” – ressaltou Josahkian.
Os próximos passos serão conduzidos em conjunto entre ABCZ, ABCBoran e o Ministério da Agricultura e Pecuária. Caso todas as etapas sejam concluídas conforme previsto, o Boran passará oficialmente a integrar o grupo de raças zebuínas registradas pela ABCZ, consolidando o trabalho iniciado pelos criadores brasileiros e ampliando as opções genéticas disponíveis para a pecuária nacional.
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