Brasil ganha nova pera desenvolvida especialmente para produzir no Sul

Batizada de BRS Áurea, cultivar da Embrapa pode alcançar até 30 toneladas por hectare e foi selecionada para enfrentar um dos principais entraves da cultura da pera no país: a adaptação ao clima brasileiro

Uma nova pera desenvolvida especialmente para as condições encontradas no Sul do Brasil começa a chegar à fruticultura nacional. A Embrapa apresentou nesta terça-feira (25) a BRS Áurea, cultivar obtida após cerca de duas décadas de seleção, testes agronômicos e avaliações em diferentes ambientes de cultivo. O material combina produtividade, características comerciais dos frutos e capacidade de armazenamento após a colheita.

A novidade chega a uma cadeia ainda pequena quando comparada a outras frutas cultivadas no país. Levantamento do Departamento de Economia Rural do Paraná (Deral), com base em dados do IBGE, mostra que o Brasil colheu 14,5 mil toneladas de pera em 2024, distribuídas por apenas 996 hectares. Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná concentram a maior parte dessa produção.

A dificuldade histórica está menos ligada à falta de mercado e mais à obtenção de cultivares capazes de responder bem às condições brasileiras. É justamente nesse ponto que a nova variedade pretende ganhar espaço.

Nova pera desenvolvida resulta do cruzamento de duas cultivares

A BRS Áurea surgiu do cruzamento entre a Hosui, de origem japonesa, e a Abate Fetel, tradicional pera europeia. O trabalho buscou reunir atributos considerados importantes para o produtor e para o mercado consumidor em uma planta adaptada às regiões brasileiras de clima temperado.

A cultivar passou por avaliações em áreas da Embrapa e também em condições de produção no Rio Grande do Sul. Entre os locais utilizados nos estudos estão Vacaria, Bento Gonçalves e Caxias do Sul, municípios inseridos em importantes regiões produtoras de frutas de clima frio.

A pesquisa considerou fatores como comportamento das plantas, época de floração e colheita, tamanho e qualidade dos frutos, sanidade e desempenho durante o armazenamento.

Potencial produtivo chega a 30 toneladas por hectare

Nos ambientes avaliados pela pesquisa, a BRS Áurea apresentou potencial produtivo estimado entre 25 e 30 toneladas por hectare.

O resultado coloca a cultivar como uma alternativa para produtores interessados em diversificar os pomares de clima temperado, embora o desempenho comercial dependa de fatores como local de implantação, condução das plantas, disponibilidade de frio, polinização, nutrição e manejo fitossanitário.

A recomendação técnica é direcionada principalmente a regiões capazes de acumular aproximadamente 400 a 600 horas de frio no inverno, considerando temperaturas inferiores a 7,2 °C.

Esse requisito limita geograficamente a expansão da cultivar e reforça a importância da escolha correta da área antes da implantação do pomar.

Nova pera desenvolvida tem colheita concentrada em janeiro

O calendário é outro ponto que pode favorecer a inserção da BRS Áurea nos sistemas produtivos do Sul.

De acordo com a caracterização técnica da Embrapa, o ciclo fica próximo de 106 dias, com colheita normalmente entre 5 e 20 de janeiro nas condições avaliadas.

A janela permite colocar a fruta no mercado relativamente cedo dentro da safra brasileira e pode facilitar a organização de propriedades que também cultivam outras espécies de clima temperado.

Para o produtor, a distribuição das operações ao longo do verão pode ser relevante porque reduz a concentração simultânea de atividades como colheita, seleção e armazenamento.

Aparência dourada ajudou a dar nome à BRS Áurea

Os frutos apresentam tamanho de médio a grande, formato típico de pera e coloração que evolui para tons dourados durante o amadurecimento — característica que está diretamente relacionada ao nome escolhido para a cultivar.

A polpa é branca, crocante e suculenta, com características voltadas principalmente ao mercado de consumo fresco.

A uniformidade visual também foi considerada durante o processo de seleção, já que formato, tamanho e aparência influenciam diretamente a classificação comercial e a apresentação da fruta nos pontos de venda.

Armazenamento pode chegar a três meses

Além do comportamento no campo, os pesquisadores avaliaram como os frutos respondem depois da colheita.

Em experimentos conduzidos pela Embrapa, as peras mantiveram boa qualidade para consumo após 90 dias de armazenamento refrigerado.

A capacidade de conservação é estratégica para uma cultura perecível, porque amplia o intervalo entre colheita e comercialização e oferece maior flexibilidade para classificação, distribuição e venda.

Isso não elimina, porém, a necessidade de uma estrutura pós-colheita adequada. Temperatura, ponto de maturação, manuseio e transporte continuam sendo decisivos para preservar a qualidade final entregue ao consumidor.

Nova pera desenvolvida busca superar dificuldade histórica da cultura

A baixa produção brasileira de pera não é um problema recente. Estudos citados pela própria Embrapa relacionam o cenário à dificuldade de adaptação de materiais estrangeiros, à irregularidade produtiva e à qualidade variável obtida em determinadas condições nacionais.

Cultivares consagradas internacionalmente nem sempre apresentam o mesmo desempenho quando transferidas para regiões com clima, horas de frio e condições de cultivo diferentes de seus locais de origem.

Por isso, o desenvolvimento de materiais selecionados dentro das próprias regiões produtoras é considerado um caminho importante para dar maior previsibilidade à atividade.

A BRS Áurea é justamente a primeira cultivar de pera desenvolvida pela Embrapa com esse objetivo.

Resistência observada nos ensaios também chama atenção

Durante as avaliações, a cultivar apresentou resistência à entomosporiose e à sarna, duas doenças relevantes para os pomares de pera.

Também foi observada menor suscetibilidade à mosca-das-frutas em comparação com outros materiais avaliados nos experimentos.

Os resultados não significam que o produtor possa abandonar monitoramento ou manejo de pragas e doenças. Eles indicam, no entanto, uma característica agronômica positiva que deverá continuar sendo observada à medida que a cultivar avance para uma área comercial maior.

Mercado nacional ainda tem amplo espaço para crescer

A concentração da produção brasileira ajuda a mostrar o tamanho do desafio.

Em 2024, o Rio Grande do Sul respondeu por 47,6% da colheita nacional, seguido por Santa Catarina, com 31,2%, e Paraná, com 10,7%. Minas Gerais e São Paulo completaram o mapa produtivo.

Mesmo nessas regiões, a área ocupada pela pereira permanece pequena diante do potencial de consumo da fruta no país.

A chegada de uma cultivar nacional não significa substituição imediata das variedades já cultivadas nem das frutas provenientes do exterior. O avanço dependerá da disponibilidade de mudas, da resposta dos novos pomares, da rentabilidade obtida pelos produtores e da aceitação comercial.

ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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