Por que a gripe aviária atacou o úbere das vacas? Cientistas encontram explicação

Estruturas presentes nas células da glândula mamária ajudam a revelar por que o H5N1 encontrou nas vacas leiteiras um ambiente inesperadamente favorável para se multiplicar

A gripe aviária protagonizou um dos episódios mais inesperados da sanidade animal recente ao deixar as aves e avançar sobre rebanhos leiteiros nos Estados Unidos. O que mais intrigou os pesquisadores, porém, não foi apenas a mudança de espécie. Nas vacas infectadas pelo H5N1, o úbere se tornou um dos principais locais de multiplicação do vírus, provocando alterações no leite, mastite e queda acentuada na produção.

A resposta para esse comportamento incomum começou a aparecer quando cientistas analisaram a glândula mamária bovina em escala microscópica. O tecido apresenta estruturas celulares que funcionam como pontos de ligação para os vírus influenza. O H5N1 encontrou, portanto, um ambiente molecular surpreendentemente compatível com sua entrada nas células.

Gripe aviária encontrou receptores compatíveis no úbere

Um vírus não consegue simplesmente invadir qualquer célula. Para iniciar uma infecção, precisa reconhecer determinadas moléculas existentes em sua superfície.

No caso dos vírus influenza, uma das etapas fundamentais envolve os chamados ácidos siálicos. A hemaglutinina, proteína localizada na superfície viral, reconhece essas estruturas e permite que o agente se fixe à célula antes de penetrá-la.

É nesse ponto que o úbere bovino chama atenção.

Pesquisa publicada pela revista Emerging Infectious Diseases, dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), identificou na glândula mamária das vacas estruturas de ácido siálico associadas tanto a vírus influenza de origem aviária quanto a vírus adaptados a mamíferos.

Os pesquisadores observaram forte expressão dessas moléculas especialmente nos alvéolos mamários ativos, estruturas responsáveis pela secreção do leite. O resultado oferece uma explicação biológica para algo que, no início do surto, parecia difícil de compreender: por que quantidades tão elevadas de H5N1 podiam ser encontradas justamente no leite de animais infectados.

Isso não significa que os receptores sejam a única causa da infecção. A própria pesquisa ressalta que outros fatores do hospedeiro e características do vírus também interferem na capacidade de multiplicação.

O H5N1 chegou justamente às células que produzem leite

A descoberta dos receptores ganhou força quando outras equipes analisaram onde o vírus realmente estava se multiplicando.

Pesquisas com tecidos de vacas infectadas identificaram o H5N1 em células epiteliais da glândula mamária, incluindo regiões ligadas diretamente à produção e condução do leite. Outro estudo, utilizando proteínas de hemaglutinina de diferentes vírus H5, constatou que variantes aviárias atualmente em circulação apresentam forte capacidade de ligação ao tecido mamário bovino.

O comportamento ajuda a explicar os sinais observados nas propriedades leiteiras.

Quando essas células são comprometidas, a consequência não é apenas a presença do vírus no organismo. A própria função do úbere pode ser afetada, provocando redução da produção e alterações na consistência e aparência do leite.

Experimentos controlados confirmaram esse potencial. Vacas que receberam o vírus pela via intramamária desenvolveram quadro de mastite e apresentaram queda expressiva na produção leiteira, enquanto o H5N1 alcançou altos níveis de replicação dentro da glândula.

A experiência demonstrou algo importante: o úbere não estava funcionando apenas como um local onde partículas virais acabavam chegando. Ele podia atuar como verdadeiro centro de multiplicação do H5N1.

Gripe aviária pode avançar pelo próprio canal do teto

Descobrir por que o vírus se multiplica no úbere resolveu apenas parte do quebra-cabeça. Restava compreender como ele chegava até lá em condições naturais.

As evidências acumuladas apontaram para uma rota especialmente relevante para a pecuária leiteira: a entrada pelo teto da vaca.

Estudos mais recentes mostraram que tecidos do teto e da glândula mamária possuem células suscetíveis ao H5N1 e sustentam a hipótese de transmissão ascendente — quando material contaminado entra pelo canal do teto e alcança regiões internas do úbere.

Essa possibilidade mudou a forma de interpretar a circulação da gripe aviária entre bovinos.

Diferentemente de uma transmissão predominantemente respiratória, o ambiente de ordenha cria condições particulares: leite contaminado pode entrar em contato com equipamentos, mãos, superfícies e outros animais. A preocupação é reforçada por experimentos que demonstraram que o H5N1 pode permanecer infeccioso por determinado período em superfícies de equipamentos de ordenha contaminadas com leite cru.

Por isso, medidas de higiene, segregação de animais doentes e desinfecção adequada ganharam importância ainda maior nas propriedades atingidas.

Um surto que inicialmente passou despercebido

O primeiro reconhecimento oficial do H5N1 em bovinos leiteiros ocorreu nos Estados Unidos em março de 2024, mas análises genéticas posteriores indicaram que o vírus provavelmente havia passado das aves para os bovinos meses antes, entre o fim de 2023 e o início de 2024.

Quando a doença começou a ser detectada, já havia sinais de uma circulação maior do que indicavam os registros oficiais.

Um estudo publicado em 2026 na Emerging Infectious Diseases analisou amostras de leite comercial coletadas entre abril e maio de 2024. Material genético de influenza A foi encontrado em 36,3% das 168 amostras de leite pasteurizado examinadas naquele primeiro período de monitoramento.

Isso não significa que o leite pasteurizado continha vírus infeccioso. Os pesquisadores não encontraram evidências de partículas viáveis nas amostras positivas, reforçando a eficácia da pasteurização. O dado serviu, na realidade, como um indicador de que o H5N1 já circulava em um número de rebanhos muito superior ao identificado oficialmente naquele momento.

Com a ampliação da vigilância, a dimensão do episódio ficou mais clara. Dados citados pelo CDC mostram que mais de 1.084 rebanhos leiteiros em 19 estados norte-americanos haviam sido afetados até dezembro de 2025.

Gripe aviária em vacas mudou uma antiga certeza científica

Antes desse episódio, bovinos não ocupavam posição de destaque entre os hospedeiros dos vírus influenza A. A ocorrência em propriedades leiteiras obrigou pesquisadores a rever essa percepção.

O fato de a glândula mamária apresentar diferentes estruturas capazes de serem reconhecidas por vírus influenza também despertou interesse do ponto de vista evolutivo. Entretanto, encontrar receptores associados a diferentes tipos de influenza não significa que as vacas automaticamente funcionem como um ambiente capaz de produzir novas variantes perigosas para humanos.

Os próprios autores dos estudos destacam que a existência do receptor representa apenas uma etapa do processo. Para um vírus estabelecer uma infecção eficiente, precisa superar diversas outras barreiras biológicas.

O que a descoberta demonstra com maior segurança é que a glândula mamária bovina era muito mais vulnerável aos vírus influenza do que se imaginava.

Essa combinação entre características do tecido, capacidade de adaptação do H5N1 e dinâmica da ordenha fornece hoje uma explicação mais sólida para um fenômeno que inicialmente surpreendeu até especialistas: um vírus conhecido como gripe aviária encontrou no úbere das vacas leiteiras um ambiente altamente favorável para se instalar e se multiplicar.

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ℹ️ Conteúdo publicado pela estagiária Ana Gusmão sob a supervisão do editor-chefe Thiago Pereira

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